16 outubro, 2006

Ópera


Localização - Tenerife, 2003
Uma onda gigantesca que envolve 23.000 m2
Autor: Santiago Calatrava

14 outubro, 2006

Pessoa (pintura Júlio Pomar)

I
Sim, farei...;

e hora a hora passa o dia...
Farei, e dia a dia passa o mês...
E eu, cheio sempre só do que faria,
Vejo que o que faria se não fez,
De mim, mesmo em inútil nostalgia.
Farei, farei...

Anos os meses são
Quando são muitos-anos, toda a vida,
Tudo...
E sempre a mesma sensação
Que qualquer cousa há-de ser conseguida,
E sempre quieto o pé e inerte a mão...
Farei, farei, farei...

Sim, qualquer hora
Talvez me traga o esforço e a vitória,
Mas será só se mos trouxer de fora.
Quis tudo -- a paz, ilusão, a glória...
Que obscuro absurdo a minha alma chora?
II
Farei talvez um dia um poema meu,

Não qualquer cousa que, se eu a analiso,
É só a teia que se em mim teceu
De tanto alheio e anónimo improviso
Que ou a mim ou a eles esqueceu...
Um poema próprio, em que me vá o ser,

Em que eu diga o que sinto e o que sou,
Sem pensar, sem fingir e sem querer,
Como um lugar exacto, o onde estou,
E onde me possam, como sou, me ver.
Ah, mas quem pode ser o que é?

Quem sabe
Ter a alma que tem?
Quem é quem é?
Sombras de nós, só reflectir nos cabe.
Mas reflectir, ramos irreais, o quê?
Talvez só o vento que nos fecha e abre.
III
Sossega, coração! Não desesperes!

Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre o sonho o que só quer não tê-lo!

Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!

O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa
1933
(Novas poesias inéditas)

13 outubro, 2006

A minha doce irmã e o preço do crescimento

A minha irmã era de uma ternura e pureza de deslumbrantes. Chamava-se Ana Cristina, mas todos nós lhe chamávamos a nossa Menina. A sua idade distanciava muito da nossa, de mim e do meu irmão, daí este tratamento carinhoso e emocionalmente elucidativo e bem sugestivo do que sentíamos por ela.
Parece que ainda a vejo no berço, aquela encomendinha intocável, frágil como era nesta sua primeira aparição ao mundo, mas com uns olhos muito belos e cintilantes faiscando de curiosidade e percepcionando tudo à sua volta, com uma lucidez e uma presença surpreendentes.
Vivos, intensamente vivos e reluzentes eram aqueles olhos.
Era assim que nós a víamos e era assim que eu a via.
A nossa Menina!
O seu nascimento mudara totalmente a nossa existência.
Fôra a surpresa. Fôramos preparados, mas mesmo assim fôra tudo inesperado, demasiado inesperado! Fôra um acontecimento único, verdadeiro, intransmissível! Só nosso.
Mais tarde a minha irmã tornou-se para mim, mais que uma irmã, mas uma companheira e uma dedicada amiga sempre ao meu lado e que se preocupava comigo e com o meu bem estar. Este solidário sentimento também o sentia inequivocamente por ela, independentemente dos seus gestos, das suas atitudes e das suas convicções. Compreendia-a e ela parecia compreender-me. Para mim nunca passou dos quinze anos e hoje uma adulta, sinto que tem os mesmos quinze anos.
Nunca a vi cavalgar no tempo, envelhecer, pois, tem a candura e a presença de quinze anos, nem mais nem menos. Apesar de ter crescido e ter-se tornado uma mulher, entre a amargura e a felicidade da vida, ela é a nossa Menina, a minha Menina, a Menina de todos nós!
Relembro a sua infância e a minha infância incontornáveis no tempo, repletas de amor fraternal à luz das transparentes brincadeiras a que nos entregávamos e assumíamos com um porte e uma seriedade infantis.
Recordo um boneco que era dela.
Um boneco que ela amava, idolatrava e se tornara imprescindível junto de
si e para onde quer que fosse.
Recordo o nome que ela lhe pusera. Chamava-seJoni.
Ele fazia parte dos seus sonhos, dos seus projectos, dos seus sentimentos e dos seus constantes pensamentos. O Joni entrara na sua vida, mas entrara com um amor intenso, inseparável. O Joni tornara-se um filho, um anjo que nascera para viver sempre com ela, em todos os seus momentos.
Amava-o.
Embalava-o quando tinha sono.
Alimentava-o quando tinha fome.
Importava-se com ele quando era preciso!
Era tudo para ela!
Nunca me intrigou a presença deste boneco na vida dela. Simplesmente pensei que deveria merecer toda a sua atenção e que deveria ser bom pela dedicação que ela lhe prestava.
Passava horas e horas a fio adorando e mimando o seu protegido, direi mais, o seu filho, o filho a quem todas as mães dedicam atenção e carinho, procurando salvaguardá-lo de todos os perigos. Ainda hoje me parece vê-la ostentando o seu valor precioso, a sua dádiva celestial, o seu imenso tesouro.
E eu compreendia-a e encarava-o com consideração e respeito.
Penso que só ela o sentia verdadeiramente como seu, só o sentia para si, sem admitir interferências de ninguém. Aproximava-se das pessoas, mas encostava-o ternamente contra o seu franzino peito numa atitude de posse total. Afinal ele era dela, só dela e nada mais interessava. Afinal, a magia do amor estava neles os dois, intrinsecamente envolvente, de forma seriamente comprometedora e como só eles sabiam, secretamente, sussurrando segredos entre si, confidências importantes que eram só suas.
Não me surpreendia que o Joni fosse careca, fosse zarolho, fosse maneta ou fosse perneta. Surpreendia-me isso sim, o facto de todos se preocuparem. O Joni, o amor da minha irmã, era tudo isto e ela amava-o, amava-o com toda a ternura e os outros, a opinião dos outros não lhe interessava. Ele era dela! Só dela! Só isso interessava, fosse ele como fosse! Se calhar amava-o por ser assim. Isso nunca ninguém o soube, mas penso que ela também não o diria a ninguém! Entrara na sua vida e era parte integrante dela. Isso chegava! Chegava para a tornar feliz! Imensamente feliz!
Aconteceu um dia. Falaram-lhe de uma pequena cirurgia num hospital famoso de bonecas em Lisboa.
Minha irmã não disse que sim, nem que não.
O Joni melhoraria, ele que não estava doente, mas se era para o bem dele havia que fazer tudo e isso era o mais importante.
Levou-se o Joni para Lisboa para fazer uma espécie de triagem, ver as possibilidades de sucesso da operação. Marcou-se a data e os médicos combinaram o que se iria efectuar no bloco operatório. Minha doce irmã concordou com tudo. Não fez objecções a nada. Ela queria o melhor para ele. Combinaram-se detalhes e marcou-se a hora.
O Joni foi operado.
A intervenção correu mal, ele não resistiu e acabou por sucumbir.Nada havia a fazer!
Minha irmã não chorou uma lágrima, mas sentiu um aperto interior que era só dela, do seu íntimo mais profundo.
Tudo tem o seu fim, mas aquele marcou um capítulo importante na sua vida infantil. A partir daí recusou todos os bonecos. Lindos! Esplendorosos! Bonitos! Normais!
Cresci e ainda agora relembro o seu amado Joni num misto de ternura, carinho, mas também de mistério. Um mistério que permanece e me faz sorrir. Afinal, algo perdurou em mim: a magia do seu encanto, o encanto da minha irmã e dos seus belos pensamentos e sentimentos em relação a tudo isto. Em relação à vida e à morte. Em relação aos afectos e ao encanto da existência, não só nos momentos bons, mas principalmente nos maus momentos.
A amizade e a mais envolvente persistência, que permanece nela e em mim, na sofrida disputa perante a vida, com Joni ou sem Joni. Mas, no fundo com um valor e importância afectiva desmedida!
Pena, 2006

12 outubro, 2006

ZIG ZAG



Há ideias que são de génio!!! Traços simples, gestuais, intuitivos, que encerram uma admirável beleza! Nunca cansa, são eternos - cadeira Zig Zag do arquitecto Rietveld. Esta cadeira rima há imensos anos com o meu estirador!

08 outubro, 2006

Espreitei pela janela

Espreitei pela janela
e não te vi chegar.
Mergulhei na vertigem
de uma razão.
Quanto tempo estive assim?
Dobrada numa cadeira
enquadrada entre a luz ténue,
filtrada pelo acabar de um dia após outro,
e as páginas de um livro?
que não li!
por perder as letras na embriaguês
de uma ausência.
Espreitei pela janela,
vezes sem conta,
e não te vi chegar.
Filigrana

06 outubro, 2006

Uma espera feita de amor

O que te vou contar é uma verdadeira peripécia, digna do meu registo e que procurarei recordar sempre por me parecer cómica.
Desculpa, mas não estou a brincar com coisas sérias.
A perplexidade e o espanto deste episódio é para rir.
Eu e a minha formosa Dani chegamos ao Hospital muito cedo.
Esperamos e esperamos.


Nisto ouviu-se o nome dela através de um altifalante, quase imperceptível, dissimulado numa parede branca muito escondida, por entre o sussurro dos inúmeros utentes doentes.
Iam-lhe espetar o que eles chamam de anzol!
Acompanhei-a até ao local e, sinceramente, não vi ninguém com uma cana de pesca. Pensei, depois de dizer que a amava, que talvez fosse um arpão e que lá dentro existiria água para explorar o seu fundo, repleto de espécies aquáticas! Esperei a minha amada cerca de dez minutos bem contados, sem contar com cinco em que sai para fumar um cigarro, que teimosamente não me larga.
De repente, vislumbrei-a a sair com o mesmo vestuário com que entrara.
Pensei com os meus botões e sossegado, que não fora atacada por nenhum peixe, mas que lhe haviam espetado um arpão na mama.
Afinal ela fora pescada!
Confesso que fiquei um pouco atrapalhado, mas pensei que talvez fosse necessário e não lhe demonstrei a minha inquietação. Íamos agora para o bloco operatório.
Sosseguei-a ternamente, e dirigimo-nos para lá.
Quase entrei com ela para o bloco, se não fosse uma médica mais determinada me informar que não podia passar um risco que marcaram no chão.
Não! Não estou a brincar! Estava lá um risco, se quiseres um segmento de recta com princípio e fim como diz o nosso colega, José!
Ai de quem passasse o segmento de recta!
Se calhar seria logo operado a qualquer coisa!
Depois de lhe dizer que a amava, outra vez, fui para a sala de espera.
Todas as doentes choravam ali, menos a minha amada, corajosa como é.
Lá dentro só diziam piadas. Esqueci-me de um pára-brisas, era o comentário de uma médica!
Disse cá para mim, que aquilo era correcto. Havia que acabar com o choro. Além disso, um pára-brisas para os olhos era bem pensado. Ao mesmo tempo, moí os meus pensamentos e conclui que algo de estranho estava ali a acontecer.
Primeiro um anzol, depois um arpão e, agora, um limpa pára-brisas! Decidi que aquilo não era conversa para mim e, por isso, chegara a hora de fumar outro cigarro.
Saí.
Ainda escutei um silêncio súbito, o que reforçou a minha vontade de fumar. Quando cheguei lá fora, aspirei uma longa fumaça para me recompôr da insólita e algo estranha sensação.
Apetecia-a uma sopa.
A sério, uma sopa e não podia esperar!
Estava a ficar maluco e uma sopa era capaz de me acalmar.
Ganhei coragem e desci ao bloco operatório. Sem pisar o segmento de recta marcado no chão, digno dum traço rigoroso, do nosso competente e amigo José. Deixei o número de telefone e a minha simpatia a um diligente e atencioso enfermeiro que me avisaria logo que ela saísse. E, lá fui comer a sopa!
Quando estava com a sopa à minha frente, mais tarde, o meu telefone tocou e o enfermeiro comunicou-me que podia ir buscar a minha amada.
Haviam passado 45 minutos.
45 minutos!
Não pude acreditar! Apesar de triste por ficar com a sopa a meio, fiquei contente por tudo ter corrido bem e sem problemas com a minha querida amada, naquele estranho hospital.
Quando cheguei, depois de uma corrida como nunca tinha efectuado, digna de um valoroso estafeta de pizas sem moto, olhei-a com a mais profunda ternura e beijei-a.
Senti que naquele instante era capaz de beijar todo o mundo!
Como não podia também beijar o enfermeiro, pedi à Dani que o fizesse e ela fê-lo!
Sem pisar o segmento de recta, digno do nosso prezado José, a minha amada ia sair, mas de cadeira de rodas.
Não gostou e queria ir a pé.
Surgiu uma situação confusa porque a encarregada da cadeira disse que se não o fizesse, ela perderia o emprego. Só sabia fazer aquilo e era o seu ganha pão.
A Dani fez-lhe o favor, porque se tratava de um favor.
Ela sorriu e lá fomos. Implicou comigo por chegar atrasado ao pé da minha amada e disse-me que se fosse o marido dela e lhe fizesse isso, tinha que se haver com ela e levava umas chineladas em casa. Calei-me, não por medo,mas porque me esquecera do carro para levar a minha amada e ela dizia que nunca mais poderia fazer aquilo, porque sem carro seria despedida.
Tremi, sem soluções para a situação dela e para a minha.
A Dani salvou-nos aos dois!
Inventou um carro abandonado e a diligente senhora deixou-nos ir.
Poderia, enfim, regressar à minha sopa, sem segmentos de rectas ou arpões ou anzóis!
A minha amada comeu um queque, um café e, até, fumou um cigarro.
Tudo correra maravilhosamente bem!
A minha apreensão, talvez, não fizesse sentido!

KOMACHI


A investigar...

05 outubro, 2006

OS PROFESSORES ESTÃO EM LUTA

OS PROFESSORES ESTÃO EM LUTA
OS PROFESSORES ESTÃO EM LUTA
OS PROFESSORES ESTÃO EM LUTA
OS PROFESSORES ESTÃO EM LUTA
OS PROFESSORES ESTÃO EM LUTA

04 outubro, 2006

03 outubro, 2006

O que é a vida afinal


O que é a Vida Afinal?...
... uma folha em branco,
que timidamente começamos a rabiscar,
e depois escrevemos com toda a convicção....
... ou não!!!!
Com pausas, com reflexão ou com irreverência,
seguimos sempre o caminho do tempo.
Cabe a nós colori-la,
retirar-lhe a monocromia,
e organizar os grafismos... num poema!
Ana d'Or
editado em www.sanzalangola.com em 11/05/2006

02 outubro, 2006

01 outubro, 2006

BRASIL eleições


Grande confusão!!!! Em quem votar???
Qual a solução para dar a volta a isto? Será que neste mundo civilizado, global, competitivamente liberal, há solução para isto? Os pobres cada vez mais pobres, os ricos, podres de ricos!!!

30 setembro, 2006

A Graça me visitou



A Graça me visitou. Sempre à pressa, em plena aula de uma quinta-feira ao fim do dia.
Um convite…
Como sempre, são os minutos mais concentrados de dias diversos. Técnicas, tintas, expressões, papéis, composição, experiências, a fotografia…e agora mais o pc, o virtual que tanto nos facilita os estudos prévios… reunimos fantasias… ontem falamos de arte primitiva, arte aborígena… como surgem as ideias…
Porque andamos sempre à procura do início de tudo? Vivemos no século 21 e andamos sempre na máquina do tempo, recuando milénios...

29 setembro, 2006

O MEU TIO


“O meu tio” – filme realizado em 1958, com Jacques Tati

Num bairro moderno, onde tudo é demasiado organizado e formal, talvez por ser demasiado colado ao “moderno”, habitam Monsieur Arpel, a sua esposa e o filho.
A convivência com o irmão da esposa, personagem sonhadora, cheio de fantasia, portador de uma permanente gabardine, semeia a confusão naquele universo antiséptico.
A cumplicidade enternecedora construída entre o tio e o sobrinho, o pequeno Gérard, vítima daquela super organização doméstica, proporciona-nos momentos ingenuamente hilariantes.
O contraste entre a pureza já minimalista da arquitectura moderna dos anos 50, e o bairro popular onde vive, este tio, onde todas as manhãs cumprimenta os seus vizinhos, brinca com as crianças, conversa com o varredor de rua, se preocupa em dar um reflexo de sol a um passarinho que vive numa gaiola, forma uma crítica surreal entre o velho, gasto mas vivido e o novo, limpo e desinfectado.
Revi ontem... absolutamente essencial!

28 setembro, 2006

Persistência em seguir Dali

Ensaio de composição gráfica sobre obra de Salvador Dali "Persistência da memória".