02 outubro, 2010
23 setembro, 2010
As inteligências

18 junho, 2010
Um livro INTERROMPIDO

Morreu José Saramago.
Este ponto final, parágrafo de fim de vida, recordou-me outro ponto finalíssimo de há 18 anos atrás.
.......
Um dia descobri que o meu pai também lia Saramago.
Depois das refeições, esticava-se no sofá, descia os óculos, pousados transitoriamente na bonita calvice, e encaixava-os sobre o nariz para iniciar os momentos da leitura.
Por vezes adormecia serenamente, por breves instantes, ampliando e enriquecendo a leitura noutras dimensões, e despertava, ainda na mesma página seleccionada, retomando a leitura sem qualquer sobressalto..
Quando tinha disponibilidade para o ouvir, contava-me sobre o que lia, especialmente se eu ainda não tinha lido a obra em causa.
Aconteceu com o "Evangelho segundo Jesus Cristo". Criaram-se diversos momentos de análise e de partilha da obra, que tanta polémica causou nessa época, servindo de ponto de partida para outros contextos, para vivências diversas.
Numa manhã de 2ª feira, o meu pai surpreendeu-se, com a estática definitiva do seu coração.
Surpresa partilhada por todos: Impossível de prever.
O livro ficou a meio.
Fiz questão em herdar aquele livro e traze-lo para casa.
Não sei em que página foi interrompida a sua leitura, porque nunca abri o livro, mas sei que ficou marcado com uma folha de papel, que continua lá.
Não, nunca abri o livro.
O livro vive junto de muitos outros, numa das minhas estantes.
Olho para ele muitas vezes, e olho por ele... limpo-lhe o pó, alinho-o, ou organizo a sua localização, mediante os livros vizinhos. Passo os olhos pela lombada e proporciono-me a viagens relâmpago ao passado.
08 março, 2010
31 janeiro, 2010
10 janeiro, 2010
09 janeiro, 2010
Não me conformo


Revolto-me.
Não me conformo.
Sempre que chegam os dias frios, a comunicação social dá visibilidade aos sem abrigo e ao metro das grandes cidades,que faz o favor de não encerrar as suas portas, para acolher os sem abrigo nas noites mais geladas.
Isto para mim revolve-me as tripas!
Cruzo-me com eles nas ruas, nos caixotes do lixo, nos sítios que sobram quando a noite avança.
Conheço alguns, sei que são todos diferentes.
Sei que se esconde por trás da aparência maltrapilha e por vezes nojenta grandes dramas pessoais ligados a esta vida madrasta, que não soube aproveitar o que há de melhor em cada um deles. Alguns vivem situações familiares graves, acompanhados com contabilidades muitos negativas dos afectos. Alguns vivem os sintomas agudos das doenças mentais, consequências de surtos de loucura permanente. Alguns vivem a pobreza, a ausência de bens.... Muitos vivem ainda uma espécie de dignidade que lhes resta antes do colapso final determinado pela paragem da vida.
Os sem abrigo estão no fim da linha da estrutura social e da degradação humana.

A minha gastrite aumenta quando penso como é relativamente fácil arranjar algumas soluções que iriam tirar a maior parte destas pessoas da rua. Constroem-se estádios superhipermegamercados, shopings, centro culturais ..... e não vejo plataformas de abrigo temporário para os sem abrigo, onde se assegure condições mínimas higiene, o depósito dos seus parcos bem, onde tenham um colchão para dormir.... e onde se centre o trabalho de equipas especializadas e adaptadas para apoiar estas pessoas omitidas, esquecidas, de corpo maltratado e de alma a sangrar, que bateram no fundo do poço e lá permanecem irremediavelmente.
Há sites na internet.
Sei que cada é um caso, e um caso difícil e complexo, mas não me conformo com esta miséria sem solução à vista.
Segundo a AMI, há 4 grandes grupos
a) Sem Abrigo
. Pessoas que vivem na rua
. Pessoas que vivem em alojamentos de emergência
b) Sem Alojamento
. Lares de alojamento provisórios – fase de inserção
. Lares de mulheres
. Alojamento para Imigrantes
. Pessoas que saíram de hospitais ou estabelecimentos prisionais
. Alojamento assistidos / acompanhado
c) Habitação Precária
. Habitação temporária / precária – casa de amigos, familiares, sem arrendamento, ocupação ilegal
. Pessoas à beira do despejo
. Vítimas de violência doméstica
d) Habitação Inadequada
. Pessoas que vivem em estruturas provisórias, inadequadas às normas sociais – exemplo: caravana
. Pessoas em alojamento indigno – exemplo: barraca
. Sobrepopulação
Esta população apresenta estas características:
- 89% está desempregada
- 28% tem formação profissional
- 92% tem familiares vivos, mas apenas 37% se relaciona com eles
- 39% não tem médico de família
- 7% tem HIV
- 28% consome substância activas
- 43% tem filhos
.....
No 2010 ano europeu de combate à pobreza e à exclusão social, Portugal gastará mais de 700 mil euros e as autoridades prometem mobilizar a sociedade civil para o seu combate.

O estádio do Águeda parece que custa qualquer coisa como 80.000 € de manutenção anual.
O estádio do Leiria parece que custou uma soma de 90 milhões de euros e a sua manutenção custa cerca d e 5.000 euros dias (será que li bem?)
Façam lá as contas... por isso a minha gastrite tem uma forte tendência a virar uma ulcera crónica.
.30 novembro, 2009
03 setembro, 2009
31 julho, 2009
11 julho, 2009
07 julho, 2009
06 julho, 2009
28 junho, 2009
Homens tigre

(...)
"A urina e as fezes dos moradores, recolhidas durante a noite, eram transportadas de manhã para serem despejadas no mar por escravos que carregavam grandes tonéis de esgoto às costas. Duranteo percurso, parte do conteúdo desses tonéis repleto de amónia e ureia, caía sobre a pele e, com o passar do tempo, deixava listas brancas sobre as costas negras. Por isso, estes escravos eram conhecidos como "tigres"."
in "1808" de Laurentino Gomes
Fiquei estarrecida!
15 junho, 2009
12 junho, 2009
11 junho, 2009
VII - A ética do género humano (7)

"El camino se hace al andar" (Antonio Machado)
A educação deve conduzir à "antropo-ética", levando em conta o carácter ternário da condição humana, que é ser ao mesmo tempo indivíduo/sociedade/espécie. Nesse sentido, a ética indivíduo/espécie necessita do controle mútuo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, ou seja, a democracia; a ética indivíduo/espécie convoca, ao século XXI, a cidadania terrestre.
A ética não poderia ser ensinada por meio de lições de moral. Deve formar-se nas mentes com base na consciência de que o humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte da sociedade, parte da espécie.
Partindo disso, esboçam-se duas grandes finalidades ético-políticas do novo milénio: estabelecer uma relação de controle mútuo entre a sociedade e os indivíduos pela democracia e conceber a Humanidade como comunidade planetária.
Não possuímos as chaves que abririam as portas de um futuro melhor. Não conhecemos o caminho traçado. Podemos, porém, explicitar as nossas finalidades: a busca da hominização na humanização, pelo acesso à cidadania terrena.
08 junho, 2009
VI - Ensinar a compreensão (6b)

Há múltiplos obstáculos exteriores à compreensão intelectual:
- o "ruído" que interfere na transmissão da informação, criando o mal-entendido e ou não-entendido;
É a arte de viver que nos demanda, em primeiro lugar, compreender de modo desinteressado. Demanda grande esforço, pois não pode esperar nenhuma reciprocidade: aquele que é ameaçado de morte por um fanático compreende porque o fanático quer mata-lo, sabendo que este jamais o compreenderá. A ética da compreensão pede que compreenda a incompreensão.
07 junho, 2009
VI - Ensinar a compreensão (6a)
A compreensão é a um só tempo, meio e fim da comunicação humana. Entretanto, a educação para a compreensão está ausente no ensino. O planeta necessita, em todos os sentidos, de compreensão mútua. Considerando a importância da educação para a compreensão, em todos os níveis educativos e em todas as idades, o desenvolvimento da compreensão pede a reforma das mentalidades. Esta deve ser a obra para a educação do futuro.
A compreensão mútua entre os seres humanos, quer próximos, quer estranhos, é daqui para a frente vital para que as relações humanas saiam de seu estado bárbaro de incompreensão. Daí decorre a necessidade de estudar a incompreensão a partir de suas raízes, suas modalidades e seus efeitos. Este estudo é tanto mais necessário porque focaria não os sintomas, mas as causas do racismo, da xenofobia, do desprezo. Constituiria, ao mesmo tempo, uma das bases mais seguras da educação para a paz, à qual estamos ligados por essência e vocação.

As duas compreensões
Há duas formas de compreensão: a compreensão intelectual ou objectiva e a compreensão humana intersubjectiva.
Mas a compreensão humana vai além da explicação. A explicação é bastante para a compreensão intelectual ou objectiva das coisas anónimas ou materiais. A compreensão humana comporta um conhecimento de sujeito a sujeito. Por conseguinte, se vemos uma criança a chorar, nós a compreendemos, não pelo grau de salinidade das suas lágrimas, mas por buscar em nós mesmos as nossas aflições infantis, identificando-a connosco e identificando com ela. Compreender inclui, necessariamente, um processo de empatia, de identificação e de projecção. Sempre intersubjectiva, a compreensão pede abertura, simpatia e generosidade.
(cont.)














