Mostrar mensagens com a etiqueta Reflexões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Reflexões. Mostrar todas as mensagens

27 dezembro, 2012

Entardeci nos aromas da canela



Entardeci nos aromas da canela, pensando e escrevendo sobre o mundo mal arrumado, dividido por anos, ciclos e eras, numa desarrumação imitando a organização.
Anoiteci pensando mais do mesmo. 
Ao caminhar numa luta diária contra os excessos, e sapatilhando milhares de quadrados de betonilha esquartejada, vou pensando naquilo que os outros pensam e penso também pensamentos que me parecem originais, colocando listas infindáveis de perguntas que apresentarei um dia ao Grande Arquitecto, para que este me possibilite a leitura duma qualquer memória justificativa sobre o mundo, e neste caso, o nosso mundo mal arrumado.
Manual de instruções também serve ou uma qualquer acta de registo da era da criação ou do estudo prévio da mesma.
O mundo mal arrumado é que nem a minha gaveta das meias, onde meias pretas se misturam com verdes, vermelhas, azuis, de verão, de inverno e de mais ou menos que não sei muito bem, numa iliteracia geográfica e multicolor, sem qualquer plano de loteamento. O mundo está assim.,,, como a minha gaveta das meias. Dá-me o que pensar!!!!
O mundo atirou-me para Humaitá numa esperança de ultima tentativa de eu sossegar e não mais pensar nos sonhos que nunca consegui cumprir…. Para eu abandonar o pensamento dos outros e os muitos porquês registados ao longo dos anos e tranquilizar, marinando numa chávena de chá de geocidreira.
- Ficas aí, para não te armares em esperta!
Derradeiramente falando foi arrumação infeliz, sem GPS, colocando tudo longe, mesmo os amigos mais próximos. Paradoxo: o longe e o perto num contexto de desterro voluntário à força. Arrumação mal arrumada e subjectiva que me cansa ao sair e na volta a Humaitá.
Para que serve viver longe de tudo? Para que serve viver numa aspiração permanente de encontrar a placa de sáída, sonhando permanentemente com uma arrumação bem sucedida de tempo e espaço que nem vitruvio, que sabia o que ficava no umbigo e nas pontas dos braços e pernas, sem ter q fazer perguntas? Tu vais para aqui e aquele para acolá, numa operação fazendo a betonilha esquartejada corar de tanta humilhação desorganizativa.
Quem se gosta deveria estar sempre por perto, quem não tem nada connosco, poderia ficar longe mesmo. Tem que ficar perto e dizer estou aqui, tem que ficar longe e dizer, já esqueci.
O mundo desarruma-se sozinho. Não fazemos nada e ele contorce-se, ganha espaço, desenrola-se sozinho, colocando tudo numa desorganização aleatória, mas que pensando bem, parece esquema organizado, mas ao contrário. Atira para Humaitá quem deveria estar nos antípodas da mesma. Ninguém pergunta se gosta ou não. Ninguém pergunta da nossa vontade, ou tira informações com o GPS. Quando acordo estou em Humaitá e tu estás a quilómetros de distancia, sem possibilidade de percorrermos o mesmo caminho, porque a geografia separa o que deveria estar próximo.
Nas arrumações é necessário um critério para que tudo fique no seu lugar. Num mundo mal arrumado não existe critério: Dizem que não existe mulher feia, mas mal arrumada. De facto todo o nosso planeta é belo, por vezes nos parece feio, quando a letra não bate com a careta.
E ela não bate mesmo!!!!! E ainda ri por cima, como uma assinatura de despacho final.
Porque vives numa cidade e não vives na outra. Porque vives num país e não vives noutro? Porque falas uma língua e não falas noutra? Porque Humaitá?
Porque fazes tanta pergunta?
(in Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado, A. Quelhas)

05 outubro, 2012

Tudo de pernas para o ar

"Hoje, nas comemorações da República, que se efectuaram com o hastear da bandeira ao contrário, Cavaco Silva parece que centrou o seu discurso na educação, dizendo que “ educação tem que continuar a ser uma prioridade".
Apetece-me chorar
 de tanta comoção!
O ensino regrediu mais de 10 anos.
Esta minha afirmação nada tem a ver com mais alunos nas turmas, com professores em horário zero, com exames, com estatuto de aluno, com mega agrupamentos, com directores, com avaliação de professores, blá, blá…. Tem a ver com algo que parece que só eu falo nisto. Algo muito simples e que terá um efeito terrível nas futuras gerações.
Acabou a área curricular não disciplinar Área de Projecto.
Ninguém fala disto!
Foi inventada quando o eng. Guterres amava a educação, acreditando que bastava amar e não era preciso alimentar.
Para quem não sabe, a Área de Projecto ensinava os alunos a pensar, a descobrir, a investigar, a resolver problemas e a avaliar. É uma área importantíssima na formação dos jovens, pois ensina-lhes, com a prática de vários anos, um método de resolução de problemas, ensina-os a pensar, a decidir, a reflectir. Claro que o ministro da educação do engenheiro Guterres, e os que se seguiram, esqueceram-se de dar uma formação bem estruturada aos docentes, e em vez disso consideraram que todos os docentes estariam aptos a dar esta disciplina.
Erro elementar!
Este método de trabalho que se denomina metodologia projectual, método cientifico, método para a resolução de problemas, é utilizado pelos designers, pelos engenheiros, pelos arquitectos e pelos investigadores. Na disciplina de Filosofia no ensino secundário passa-se os olhos por este método inserido na teoria do conhecimento, quando já se vomita Kant, Platão, Descartes, Locke, etc..e já se está a fazer a despedia à “maldita” da filosofia.
A interiorização deste método de trabalha leva anos, por isso os alunos aplicavam-no desde o 2º ciclo até ao secundário. A sua avaliação era qualitativa, porque não interessa avaliar resultados finais, mas sim interiorizar o processo, e utilizar os mecanismos de Investigação/ avaliação/ decisão de forma continuada na nossa vida.
Durante estes anos a Área de Projecto funcionou mal, devido à falta de formação da maioria dos docentes como já referi, mas, mal ou bem, existia e ia-se traçando um caminho por vezes sinuoso, aguardando-se melhoramentos no mesmo. Alguns alunos tinham a sorte de ter um docente com prática neste método de trabalho, e tornavam-se capazes de fazer a diferença a médio e longo prazo.
Esperava, que o Ministro Crato com a formação cientifica que possui, visse mais longe. Cheguei a acreditar que desse a volta à coisa, fizesse uma reforma geral, que reforçasse a área de projecto nos alunos entre os 8 e os 12 anos, pois é nessa faixa etária que tudo se passa na formação das ligações entre as estruturas cerebrais, que desse formação conveniente aos docentes e que finalmente a Área de projecto entrasse, já não digo numa auto-estrada, mas vá lá, numa estrada nacional.
A Área de Projecto desapareceu do currículo dos alunos do ensino básico.
Conclusão: Aos nossos governantes não interessa ter cidadãos inteligentes, capazes e pensadores." Anabela Quelhas

29 maio, 2012

A arte é ou não é importante?


A arte é ou não é importante?

  
 A arte ajuda a realizar a integração da identidade de cada um em relação ao mundo que o rodeia. Provavelmente já me ouviram dizer algumas vezes que para mim, mais importante que ensinar conteúdos na educação visual, é facilitar a cada a aluno na procurado seu mundo interior e facilitar a sua expressão exterior. Que interessa cumprir o programa se a autoestima do aluno não foi estimulada?  Vou sempre buscar como exemplo negativo aqueles que nunca mais esqueceram o pesadelo dos borrões provocados pelo velho tira-linhas.
    A arte liberta a alma, porque ensina a ver o mundo à nossa volta, entender os seus conflitos e recriar os acontecimentos consoante o confronto que cada um faz consigo mesmo. A arte enriquece o desenvolvimento integral do aluno, desenvolve a imaginação e torna mais consciente a sensibilidade de cada um, favorecendo a autonomia, a capacidade de intervenção sobre o meio e construindo uma maior consciência sobre as suas escolhas..
    A arte desenvolve o raciocínio lógico abstrato, porque ensina a pensar, a equacionar e resolver problemas e a projetar saídas para além do mundo real. A arte reduz a agressividade, pois facilita a exteriorização de emoções e canaliza-as para a concretização artística, onde o impossível não existe.
    Não quero alunos formatados e todos iguais. A arte permite ir ao encontro de cada um e aproveitar o que há de melhor na sua personalidade e trazer essas potencialidades para o plano do consciente. Nenhuma outra área do saber trabalha de forma tão eficaz o ego e a autoestima dos nossos alunos. Alunos alegres e confiantes, são alunos capazes de aprender melhor.

16 março, 2012

13 março, 2012

Mãêêê





Mâêêê!

Estou aqui.

Continuo na roda da vida que gira sempre em diferentes trajectórias numa velocidade nem sempre constante.

Em anos passados estaria a preparar a nossa festa comum de aniversário com as guloseimas que ambas adorávamos. Dois em um com a diferença de umas horas, para resultar reforçados os laços que nos uniam. Em anos ainda mais passados eras tu que tornavas esses dias especiais. Onde estarás agora? Quem te prepara a festa de aniversário? O pai? Uhhhhmm com o jeito que ele tinha para pilotar fogão deves ficar no prejuízo!

Tenho saudades.

Tenho saudades de ti.

O pensamento já há muito que é insuficiente para colmatar tanta carência.

Estarás a espreitar o que escrevo? Se estás, os teus olhos cor de amêndoa estarão a sorrir e suspirarás fundo.

Mâêêê!

Já não sei cantar as músicas de aniversário, porque será?

Não sei ou não me apetece.

11 novembro, 2011


Este é um momento único da minha existência.
Dia 11.11.11 às onze horas e onze minutos.
Data 11 - polissémica. Não vou dizer, mas com muitas, muitas referências na minha vida.
Este momento proporciona-se a alguma reflexão sobre o tempo, que é impossível de parar e de repetir. Sintome-me pequena, minúscula perante a complexidade que é o parâmetro TEMPO.

30 abril, 2011

Obrigada João


Atrás: Victor, Sérgio, Edmundo, Anabela, João e Zeca.
Á frente: Pi, Pepino e Jorge.
Atrás: Victor, Sérgio, Edmundo, Anabela, João e Zeca.
À frente: Pi, Pepino, Jorge Nuno, Jorge, Rosário, Graça e Miranda.

.....

Tudo morria de fome, mas ninguém ousava mostrar as suas competências em pilotar um fogão, num final de dia de Julho. A preguiça e o cansaço sobrepunham-se à vontade de deglutir.

O dia foi cheio, a noite anterior também.

O dia foi dedicado a visitar o património popular do Alto Minho, pontualmente orientado pelo mestre Távora.

A noite anterior foi animada como só os teenagers o sabem fazer - do nada criar um universo de humor, que mata todas as horas da noite até de madrugada. Os blues, o rock e o jazz invadiram aquela casa com uma arquitectura que espicaçou a criatividade de cada um e desde a entrada ocupou espaço no coração de todos. Era uma constante ouvir uma exclamação de apreciação àquele espaço tão bem concebido na sua volumetria interior.

Claro que o João fez das suas ao longo da noite, chegando ao ponto de ser necessário recorrer aos materiais de primeiros socorros. A guitarra foi continuamente dedilhada. Nessa época ninguém se preocupava com os fumadores passivos. A cadeira butterfly de Antonio Bonet foi disputada em toda a nossa permanência naquele espaço habitável. As poucas horas dormidas remataram com o carinho de alguém que delicadamente pôs no leitor de cassetes, o inigualável "Wish you were here" dos Pink Floyd, abrindo suavemente as cortinas sobre a foz do rio Minho.

http://youtu.be/QCQTr8ZYdhg

Mas tudo morria de fome. Os dois que tinham fama de serem os mais decididos da turma, aventuram-se na confecção do jantar.

Eu e João.

Saiu um arroz temperado com brandy e uns saborosíssimos bifes, marinados em grande discussão sobre a emancipação da mulher e o eterno machismo na hora de chegar a casa e fazer o jantar. Alguém me cantou lady Jane lady Anne dos Rolling Stones ,

http://youtu.be/5OWKyy94C64

apaziguando a minha revolta em volta de tachos e frigideiras, seguido de um BB King num blusão que só o João sabia interpretar.

http://youtu.be/6jCNXASjzMY

Obrigada João por pores tantas vezes a tua guitarra a cantar e a chorar para nós.

Um aplauso grande para ti.

Até…ao infinito????

Anabela Quelhas


02 abril, 2011

Refresh póstumo


Recordo o teu sorriso e o olhar apurado sobre as coisas, emoldurado com os teus óculos em forma de octógono, que tudo observava numa perspectiva filosófica. Foi contigo que partilhei Camus, Simone de Beauvoir e Boris Vian, em noites de inverno, quando não apetecia sair, e o ler entre os cobertores sabia bem melhor. Eu rabiscava, mergulhada em dezenas de esquissos que iam invadindo o meu caderno de desenho preto, e como som de fundo, ouvia-te a estudar filosofia… por vezes em vez de estudar, era marrar… porque não dizer? por isso se ouvia!
Foi através desse som de fundo que conheci Durkheim, Sartre, Leibniz, Pascal, Descartes, … o eterno Platão e outros. O livro do Edgar Morin, o "Paradigma perdido", saltitava entre os teus móveis e por vezes vinha também visitar a minha papelada, cumprimentar o Aldo Rossi, Corbusier, Kenzo e o Leonardo Benevolo.
Tanta vez o Edgar Morin foi citado por ti! e até eu já tratava o Egas por tu.
Eu fumava e fumava, SG, e Gitanes nos momentos de desespero, e escrevia memórias descritivas e justificativas, que tu corrigias sem entender patavina do conteúdo. Reclamavas sempre: os arquitectos dizem cada coisa que ninguém entende! e tu ainda por cima não usas virgulas! sabes para que servem as vírgulas?.
Os diálogos oscilavam entre a Faculdade de Letras e a Escola Superior de Belas Artes, entre o Campo Alegre e S. Lázaro, entre o D. Januário Torgal e o Siza Vieira, entre textos filosóficos gigantes e projectos arquitectónicos. Os copianços também se faziam, eu por vezes dava e arquitectava ideias!!!!!!!! Para alguma coisa realmente útil servia a minha imaginação!... diziam....
Vivemos algumas cenas hilariantes pelas casas onde passamos. Certo dia uma dentadura amanheceu dentro das nossas canecas do pequeno almoço, a sorrir para nós. Partilhávamos refeições no “Vasquinho” e confeccionavas umas admiráveis almôndegas que batiam aos pontos as tristonhas omoletes substitutas das cantinas.
Convivia a organização com a ausência dela.
Convivia o estudo e o trabalho, com a diversão até altas horas da noite, dançando e pulando de alegria numa discoteca qualquer. Havia poucas discotecas na altura, mas isso não impedia diversão até fartar, nas festas de garagem. Até dançávamos o "Saturday nigth fever", o merengue e a marrabenta. Viamos todos os filmes do Bergman, e comentávamos até altas horas da noite, estabelendo comparações cinéfilas com outros registos. Amavas os registos indianos, eu entusiasmava-me com o cinema francês com o Jean Louis Trintignant. Suspendiamos tudo para ver ”A Gabriela, cravo e canela” … eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim, gabrieeeelaaaaa na voz inconfundível de Gal Costa do genérico da telenovela.
Ainda fizemos umas incursões no teatro TUP, no edifico do SICAP. No café tínhamos muito amigos comuns que nos acompanhavam nas horas de lazer. Usavas grande cabeleira de caracóis que contrastava com a minha grande cabeleira quase índia. Quase nos contrataram um dia para um evento de beleza capilar, porque não aceitamos?!
Estávamos convencidas que o futuro ficava a anos luz de distância e a terceira idade começava na véspera dos 30 anos.
Nos momentos de grande stress e de tristeza, o meu sentido de humor branqueava tudo. Como tu rias das histórias mirabolantes que eu te contava do Portugal profundo e de uma Angola que teimava em reinar no meu coração!
Acertávamos alegrias e tristezas, amores, paixões. Ambas de afectos violentamente interrompidos por Abril, mas que nunca puseram em causa as nossas convicções acerca da Liberdade. Falávamos de Moçambique e de Angola, apresentando-nos a Machava e o Kikolo, partilhando machimbombos, gingubas, picolés e shuingas, alimentando a saudade saboreando chávenas de chá no inverno e apreciando cubas livres bem geladas no verão.
Sentiamo-nos sempre incompletas, devido a alguém esquecido lá atrás do tempo. Eramos felizes, sem sermos plenamente felizes.
Decidiste partir! Será?
Até sempre amiga.
anabela

20 junho, 2009

PORTO MAIO DE 77


















Chegou isto ao estir@dor 32 anos depois.
Fiquei emocionada. Eu estava lá, mais os meus colegas da Esbap e os colegas de Psicologia. Em frente ao teatro S. João, do lado direito. Quem esteve lá reconhece todas as imagens registadas possivelmente pelo Mário Vaz e sabe o que se viveu nesta luta estudantil: Cardia estava no poder e pela primeira vez depois do 25 de Abril,: a policia carregou sobre os estudantes. Foi na rua da Firmeza. No tribunal, situado na mesma rua proferia-se a defesa do aluno Torgal, detido no dia anterior. A defesa foi feita pelo arqto Alves Costa, nosso prof, e que fez um discurso inflamado anti-facista, muito bem conseguido, perante o Juiz, que emocionou alguns e ganhou o respeito de todos.

As fotos falam mais do que possíveis descrições.

(Obrigada Zé)

21 janeiro, 2009

Ensaio sobre a cegueira

Fui ensaiar a cegueira na Lusomundo.
Tinha apenas a referência de Fernando Meireles (arquitecto brasileiro) como realizador e a obra escrita e lida de José Saramago.
Quando me sentei na sala pensei que iria assistir a uma brasileirada.
Engano meu.
Deparei-me com um filme de ficção de alto nível.
O filme é um registo denso, forte, profundo, violento, intenso e com uma coordenação excepcional entre imagem, som e intenção.Por duas vezes que saltei na cadeira devido a dois imprevistos. Não há tempos mortos.
O registo é muito fiel ao livre, só encontrei um pequeno pormenor que foi inventado.
Para quem já leu o livro, o filme será excepcional, e talvez não fosse possível faze-lo de outra forma. Para quem não leu, estará mais aberto a algumas dúvidas.
É um filme que mexe connosco, pois não conseguimos ficar indiferentes e acabamos por participar no sofrimento descrito daqueles seres humanos.
È impossível não ficarmos a reflectir sobre a condição humana e como todos nós possuímos uma grande fragilidade que perante uma falha, rapidamente nos leva à desorganização, e desestruturação, mas onde se mistura o egoísmo e oportunismo, com a solidariedade e a coragem.
Não percam!


02 janeiro, 2009

Não sei

Clique para ampliar

07 outubro, 2008

Musseques de Luanda


Musseques de Luanda

A cidade de Luanda concentra 3 cidades:

1 - A cidade "colonial" - centro administrativo, dos negócios e urbanizada antes de 1974.

2 - Os musseques - onde moram a maioria dos citadinos.

3 - Os subúrbios de luxo.


OS MUSSEQUES DE LUANDAA palavra musseque tem origem no kimbundo (mu seke) e significa areia vermelha.A um dado momento, musseque, passa a designar os grupos de palhotas, que se adensam no alto das barrocas e que por semelhança à SEKE (vermelho ocre) toma o nome do material (areia) sobre o qual se implantam. O seu desenvolvimento está intimamente ligado ao da cidade propriamente dita.

A partir de 1962, a febre da construção civil e o lançamento da indústria, fascina cada vez mais as populações rurais que abandonam os seus locais de origem e migram para a cidade grande, Luanda. Estas gentes instalam-se nos musseques e reagrupam-se segundo as suas origens.

Os musseques passam a designar o espaço social dos colonizados, assalariados, reduto da mão de obra barata e de reserva, ao crescimento colonial, colocados à margem do processo urbano, surgindo como espaço dos marginalizados, e cuja fisionomia está em constante transformação.

Em 1974, Luanda conta com quase meio milhão de habitantes onde se inclui 340.000 africanos. Nessa época, na planta da cidade, já se podem distinguir três grandes zonas de musseques, organizadas segundo as principais linhas de expansão da cidade:

- A este - localizam-se os musseques mais antigos, Sambizanga, Mota, Lixeira, Marçal, Rangel (o mais populoso), Adriano Moreira e Cazenga (o mais extenso).

- A sul - Calemba, Cemitério Novo e Golfe.

- A sudoeste - Catambor e Prenda, este último "premiado" no início da década com um arranhacéus de betão.

No meio da cidade nova e completamente engolido pelas novas avenidas, e respectivas construções, localiza-se o pequeno B.O. (bairro operário).

O aspecto construtivo diferenciado surge de acordo com a origem dos seus habitantes, a sua ocupação e o grau de adaptação à cidade; existe sempre um traço comum - a organização do espaço.

O musseque é fechado sobre si mesmo, num entrelaçado complexo e orgânico de ruelas, "pracetas" e corredores. As ruas são estreitas, verdadeiros corredores ou espaços de passagem, com a largura de um homem, desconhecendo qualquer tipo de planeamento, respondendo apenas à possibilidade de acesso peatonal aos espaços mais reconditos do coração do musseque, ocupando apenas os pequenos espaços sobrantes entre cada construção. Estes corredores são delimitados pelas próprias construções e por vedações, sustentadas por estacas, e fechadas com diversos materias recuperados nos lixos e abandonados nas obras (lata e desperdícios), fazendo lembrar verdadeiras paliçadas, interrompidas por janelas e portas com as mesmas características.

A configuração caótica e fechada, favoreceu, a formação da personalidade e da identidade nacional no seio do povo, o desenvolvimento da resistência ao colonialismo e a construção de um espírito revolucionário, que tanto inspirou poetas, contadores de histórias e cantores populares.

A história tem confirmado ao longo do tempo (para mal de qualquer ditadura), que a densificação urbana permite a organização e a propagação de ideais revolucionários.

As recentes destruições causadas pela guerra civil, os massacres, e o exôdo das populações do interior, à procura de refúgio dos combates, transformam completamente o aspecto dos musseques de Luanda.

A população actual de Luanda é de 4,5 milhões de habitantes, perto dos 5 milhões - 8 vezes mais que em 1974 - provocando a exaustão da cidade, com ¾ da população a viver em musseques.

Ao longo de três décadas, os musseques deixam de ser bolsas da malha urbana Luandense, passando a grandes manchas disformes, ao redor do núcleo urbano, que foram crescendo desordenadamente, sem qualquer controle, ignorando qualquer determinação urbanistíca (não existe uma polítca de desenvolvimento urbano), absorvendo cada vez mais pessoas, e sem condições de salubridade.

A comuna N'Gola Kiluange, situada na área de Sambizanga tem uma população, estimada em 1994, de 125.000, com crescimento anual de 18%.

As casas, ou se preferirem, os espaços precários destinados à função de habitar, são construídas em adobe, com frágeis fundações, outras, não passam de barracas ou refugios improvisados; concentram-se junto das estradas, desadaptadas à morfologia dos terrenos de suporte, não resistindo por vezes às enxurradas da época das chuvas torrenciais e com esgotos a céu a aberto.

A inexistência de infraestruturas, redes de abastecimento de água, electricidade, recolha de esgotos, águas pluviais e de lixos, é uma constante ameaça à saúde pública - malária, tuberculose, cólera, hepatite, mortalidade infantil elevada, etc. - empurrando esta gente, esquecida e amontoada ao longo dos anos, para níveis de extrema pobreza.

Anabela Quelhas - 2006/07/21

18 setembro, 2008

ELVIRA FORTUNATO



Elvira Fortunato, cientista portuguesa de micro-electrónica, uma das melhores do mundo
26 08 2008
Inovação Mundial - Universidade Nova produz primeiros transístores com papel
Os dispositivos poderão ser usados em ecrãs de papel, etiquetas, chips de identificação e aplicações médicas.

Citação do Expresso de 21 de Julho de 2008:
Uma equipa de cientistas do Centro de Investigação de Materiais (Cenimat) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, liderada por Elvira Fortunato e Rodrigo Martins, conseguiu produzir pela primeira vez em todo o mundo transístores com uma camada de papel que são tão competitivos como os melhores transístores de filme fino baseados em óxidos semicondutores, área de investigação de ponta em que o Cenimat detém patentes internacionais.

Transístor de papel desenvolvido em Portugal, na Universidade Nova de Lisboa
Os resultados obtidos “auguram promissoras aplicações no campo da electrónica descartável”, afirma um comunicado da reitoria da Universidade Nova divulgado hoje. Os novos transístores poderão, assim, ser usados em ecrãs de papel, etiquetas e pacotes inteligentes, “chips” de identificação e aplicações médicas. E a produção em larga escala será facilitada pelo baixo custo do papel no mercado mundial.
A celulose é o principal biopolímero existente no nosso planeta e a indústria electrónica está a investir cada vez mais no desenvolvimento de dispositivos com biopolímeros, devido a seu baixo custo, tendo surgido alguns estudos a nível internacional sobre a utilização do papel como suporte físico de componentes electrónicos. Mas é a primeira vez que se utiliza papel como parte integrante de um transístor.
O Cenimat fabricou transístores de filme fino onde o isolante eléctrico - ou dieléctrico - é feito em papel vegetal ou de fotocópia. Um transístor é constituído por três terminais: a fonte, o dreno e a porta (ver ilustração). Nos dispositivos produzidos pelos investigadores da Universidade Nova - os chamados transístores de efeito de campo (FET-Field Effect Transistor, em língua inglesa) - a corrente eléctrica que passa entre a fonte e o dreno é controlada pela tensão aplicada à porta, que tem de estar isolada. A inovação consistiu precisamente no uso do papel para esse efeito num dos lados, e como suporte do próprio dispositivo no outro.
Recorde-se que no final de Maio foi apresentada em Los Angeles uma nova geração de mostradores da Samsung a aplicar em telemóveis e outros suportes, desenvolvida pelo Cenimat e que usa novos materiais cerâmicos com propriedades semicondutoras ligados à chamada electrónica transparente. O centro de investigação da Universidade Nova está envolvido noutros projectos nesta área na Coreia do Sul, Irlanda, EUA, Itália e França.

A cientista que ganhou 2,5 milhões de euros do European Research Council
Elvira Fortunato, da Universidade Nova, conquista o maior prémio de sempre dado a um investigador português.

06 setembro, 2008

O meu aluno X

Arte: Concurso de pintura e escultura para invisuais
Porto, 05 Set (Lusa) - A Associação de Cegos de Portugal (ACAPO) e a empresa Grupótico lançaram hoje o "Mostra Olhares" um concurso de pintura e escultura para invisuais que pretende mostrar o olhar de "quem não vê com os olhos mas com o coração".

A iniciativa, que decorre no Ano da Diversidade Cultural, surge como consequência do trabalho que tem sido desenvolvido pela Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal "na integração e reconhecimento das pessoas com deficiência na sociedade", salientou Luís Almeida, responsável da ACAPO.
A partir de hoje qualquer cidadão invisual pode participar no "Mostra Olhares", nas categorias de pintura e escultura (júnior e adulto), não havendo qualquer tipo de exigência mínima.
O concurso "é um estímulo a que os invisuais descubram que até podem ter talentos que desconhecem", frisou Luís Almeida.
"Será possível, com o evoluir do tempo, ter pintores e escultores com deficiências visuais", sustentou o responsável da ACAPO.
Hélder Oliveira, administrador da empresa sublinhou que a principal intenção da iniciativa "é não só captar os [invisuais] que já desenvolvem este tipo de actividade, mas fazer com que os outros também experimentem".
Os trabalhos vão ser expostos numa mostra itinerante em várias lojas da Grupótico.
Os prémios, três por categoria, são de "índole informática para que os invisuais também possam aceder a esse tipo de equipamento", disse Hélder Oliveira.
A 03 de Dezembro, Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, os trabalhos serão leiloados e o valor conseguido será revertido em equipamento para a ACAPO.
Os trabalhos devem ser entregues até 10 de Outubro, na loja da empresa na Boavista, Porto.
Extraconcurso serão admitidas obras fotográficas que serão exibidas na mostra oficial a partir de Outubro.
LYL.
Lusa/Fim.


















O meu contacto com invisuais é muito reduzido e deixa-me sempre perplexa.
Aterroriza-me um mundo vivido na escuridão. Não são os problemas de mobilidade, de socialização, de integração na sociedade que me ensombram. Penso que tudo isso constituem desafios com possíveis respostas mais ou menos mecanizadas ou até humanizadas.
Amedronta-me a ausência de referências visuais, a ausência da forma, da cor do contraste que só o sentido da visão nos consegue fornecer com qualidade. Eu que vivo essencialmente o mundo visual, estético e criativo, a viagem para uma escuridão permanente é algo com que tenho muita dificuldade em lidar.
Já tive um aluno invisual, com cegueira total, a quem eu dava aulas de educação visual, e ele desenhava sem problema algum.

O aluno X transpunha para o papel os esquemas mecânicos existentes no corpo humano. Desenhava as proporções correctas, os pontos de articulação que permitem o movimento da figura humana muito melhor e mais rápido do que os colegas, eu diria até de uma forma espontânea, sem ser necessário grande reparo da minha parte, mas em tudo havia a ausência da forma.
A estrutura estava lá, a forma não.

No corpo humano, o meu aluno X não desenhava as formas musculares, como se todos nós sobrevivêssemos apenas com um esqueleto. Nunca consegui obter resultados satisfatórios nesse exercício formal.

Entristeci repetidas vezes, por não conseguir obter o sucesso que pretendia, mas o meu aluno não! Animava-me! Era um grande optimista!
Para ele era mais importante a minha explicação, do que a sua realização gráfica. Para ele não tinha qualquer importância o facto de conseguir ou não, desenhar o que eu lhe explicava, era completamente insensível a isso. Ele gostava de saber o funcionamento anatómico, para que servia e como podia usufruir do corpo que eu tentava que desenhasse, e era isso que eu lhe explicava, a relação da forma com função. Ainda tive que recorrer aos livros de anatomia.

O aluno X era craque no registo das texturas, e na recriação das mesmas. Os padrões em duas dimensões eram outro vazio…. a cor, suas tonalidades e interacção das mesmas constiuia o inexplicável que eu tentava traduzir por palavras, fazendo sempre crescer em mim um sentimento de frustração.
Conversámos mais do que trabalhámos. Ele era um grande criativo e eu admirava-me imenso com as soluções que ele imaginava para o mundo.
Ele apreciava muito as descrições que eu lhe fazia do mundo real. Dizia que gostava de ver o mundo utilizando os meus olhos. Detectava-me pelo meu perfume que eu fazia questão de utilizar diariamente, sempre igual para não lhe baralhar os sentidos.

Apresentei-lhe Picasso, Dali, Miró, Van Gogh, Leonardo da Vinci e o grande maluco do Andy Warold (como ele lhe chamava), e outros. Ele gostava imenso de saber como apareceram estes pintores e o que eles tinham feito de novo para surpreender as pessoas suas contemporâneas. Delirou com os diversos truques de Leonardo... "grande sabidolas!!!!".
Ele contava-me do seu mundo e do seu imaginário.
Ouvi mais do que aquilo que lhe consegui ensinar. Eu aprendi mais, concerteza dessa outra dimensão invisual, e desenhei o aluno X no meu coração, com cores de outras galaxias que tem a qualidade de ser intemporais.
.....
Um dia arranjei um marceneiro para reparar as minhas cadeiras de palhinha e reparei que era invisual.
Não queria acreditar, mas não houve qualquer problema.
Penso que o problema sou exactamente eu.
Humildemente me curvo por respeito a todos os invisuais que fazem um esforço para não nos sentirmos mal por eles viverem num mundo paralelo, que para nós faz pouco sentido.
Beijo para o meu aluno X.


11 março, 2008

Jactos dos executivos


POR ONDE ANDA A DEMOCRACIA?

Mário Crespo. Lisboa

Pronto! Finalmente descobrimos aquilo de que Portugal realmente precisa: uma nova frota de jactos executivos para transporte de governantes. Afinal, o que é preciso não são os 150 mil empregos que José Sócrates anda a tentar esgravatar nos desertos em que Portugal se vai transformando. Tão-pouco precisamos de leis claras que impeçam que propriedade pública transite directamente para o sector privado sem passar pela Partida no soturno jogo do Monopólio de pedintes e espoliadores em que Portugal se tornou. Não precisamos de nada disso. Precisamos, diz-nos o Presidente da República, de trocar de jactos porque aviões executivos "assim" como aqueles que temos já não há "nem na Europa nem em África".

Cavaco Silva percebe, e obviamente gosta, de aviões executivos. Foi ele, quando chefiava o seu segundo governo, quem comprou com fundos comunitários a actual frota de Falcon em que os nossos governantes se deslocam.Voei uma vez num jacto executivo. Em 1984 andei num avião presidencial em Moçambique. Samora Machel, em cuja capital se morria à fome, tinha, também, uma paixão por jactos privados que acabaria por lhe ser fatal. Quando morreu a bordo de um deles tinha três na sua frota.

Um quadrimotor Ilyushin 62 de longo curso, versão presidencial, o malogrado Antonov-6, e um lindíssimo bimotor a jacto British Aerospace 800B, novinho em folha. Tive a sorte de ter sido nesse que voei com o então Ministro dos Estrangeiros Jaime Gama numa viagem entre Maputo e Cabora Bassa. Era uma aeronave fantástica. Um terço da cabina era uma magnífica casa de banho. O resto era de um requinte de decoração notável. Por exemplo, havia um pequeno armário onde se metia um assistente de bordo magro, muito esguio que, num prodígio de contorcionismo, fez surgir durante o voo minúsculos banquetes de tapas variadíssimas, com sandes de beluga e rolinhos de salmão fumado que deglutimos entre golinhos de Clicquot Ponsardin.

Depois de nos mimar, como por magia, desaparecia no seu armário. Na altura fiz uma reportagem em que descrevi aquele luxo como "obsceno". Fiz nesse trabalho a comparação com Portugal, que estava numa craveira de desenvolvimento totalmente diferente da de Moçambique, e não tinha jactos executivos do Estado para servir governantes.Nesta fase metade dos rendimentos dos portugueses está a ser retida por impostos. Encerram-se maternidades, escolas e serviços de urgência.

O Presidente da República inaugura unidades de saúde privadas de luxo e aproveita para reiterar um insuspeitado direito de todos os portugueses a um sistema público de saúde. Numa altura destas, comprar jactos executivos é tão obsceno como o foi nos dias de Samora Machel. Este irrealismo brutalizado com que os nossos governantes eleitos afrontam a carência em que vivemos ultraja quem no seu quotidiano comuta num transporte público apinhado, pela Segunda Circular ou Camarate, para lhe ver passar por cima um jacto executivo com governantes cujo dia a dia decorre a quilómetros das suas dificuldades, entre tapas de caviar e rolinhos de salmão.

Claro que há alternativas que vão desde fretar aviões das companhias nacionais até, pura e simplesmente, cingirem-se aos voos regulares. Há governantes de países em muito melhores condições que o fazem por uma questão de pudor que a classe que dirige Portugal parece não ter.Vi o majestático François Miterrand ir sempre a Washington na Air France. Não é uma questão de soberania ter o melhor jacto executivo do Mundo. É só falta de bom senso.

E não venham com a história que é mesquinhez falar disto. É de um pato-bravismo intolerável exigir ao país mais sacrifícios para que os nossos governantes andem de jacto executivo. Nós granjearíamos muito mais respeito internacional chegando a cimeiras em voos de carreira do que a bordo de um qualquer prodígio tecnológico caríssimo para o qual todo o Mundo sabe que não temos dinheiro.

Mário Crespo - Lisboa



Mas tudo bate certo! Ainda ontem Cavaco Silva se congratulava com o seu mandato de presidente da estabilidade pública,.... dizendo que tem contribuido para um clima de confiança, mobilizando os portugueses para grandes causas!

Ora, como parece, uma das grandes causas são os jactinhos executivos!

Bate a letra com a careta!

09 março, 2008

As minhas manifs





Já participei em algumas manifs ao longo da vida. Não em tantas como devia. A interioridade, dá razões apaziguadoras ao meu subconsciente, e que justificam a minha estática, sentada no meu estirador. Comodamente, opto mais facilmente pela greve, do que em deslocar-me até à capital do reino.

Das manifs em que já participei, esta é 3ª digna de registo.

Em Maio de 1975, eu ouvia os adultos dizer, que a manif do PRIMEIRO 1º de Maio de 74, após a revolução dos cravos, tinha sido marcante e irrepetível. Essa é que tinha sido boa!
No meu percurso estudantil, no tempo em que MEC era a sigla de Ministério da Educação e Cultura e não de Miguel Esteves Cardoso, lembro-me duma manif de estudantes, que inundou a praça da Batalha do Porto, contra Sottomaior Cardia, Ministro da Educação, que nunca conseguiu conciliar a sua vivência de contestatário do sistema fascista, com a escola democrática que dava os primeiros passos, e que sofreu os primeiros golpes com este senhor.
Nessa altura, eu era jovem, e uma manif que parásse o trânsito, irritásse os policias e envolvesse uma série de RGAs, já estava bom! Esta manif contra Cardia, teve como saldo, um colega de arquitectura preso, ainda por cima menor, que experimentou na pele a dinâmica de alguns “extra longos”.

A 2ª manif digna de registo, passou-se na década de oitenta.
Já não consigo precisar o ano, talvez 1982.
Estava no poder, o sr. Pinto Balsemão e o seu ministro das polícias (administração interna talvez), era o inesquecível e actual dito democrata, Ângelo Correia.
As pessoas têm a memória curta e o tempo é o melhor bálsamo branqueador que existe.
A direita instalada no poder começava a sentir a força dos trabalhadores, e utilizou uma das forças sindicais, para criar clivagens entre a onda contestatária que se desenvolvia e ampliava em poucos meses.
A Avenida dos Aliados e Praça da Liberdade da baixa da cidade do Porto, tradicionalmente utilizada pelos trabalhadores para festejar o 1º Maio, converteu-se ridiculamente,no motivo de conflito entre as duas centrais sindicais, prodigiosamente trabalhado nos bastidores pelo poder.
O poder tentava desesperadamente travar o direito de reunião e contestação de todos. No último dia de Abril de 1982, Ângelo Correia montou na baixa do Porto um aparato policial, armado de metralhadoras e com ordem para disparar, perante o olhar estupefacto dos portuenses.
Os tripeiros não queriam acreditar que a policia de choque do 24 de Abril tinha voltado às ruas.
Pois voltou!
Voltou com o nome de policia de intervenção.
As carrinhas chegavam, e iam estacionando em pontos estratégicos e pouco iluminados: atrás da Câmara Municipal, na rua da Fábrica, S. Bento, Rua 31 de Janeiro,…Rua das Flores, etc, etc. Os reforços ficaram nos Leões e praça da Batalha.
Por volta da meia noite, a policia recebeu ordem para atirar sobre as pessoas que se encontravam pacificamente a festejar o dia do trabalhar, no local autorizado meio ano antes pelo sr. Governador Civil da cidade Invicta.
Atiraram para matar.
Não atiraram para o ar, não atiraram para as pernas, nem com balas de borracha. Atiraram para matar, com balas verdadeiras e à altura do coração.
Dois jovens foram baleados e mortos, junto à esquina da rua Mouzinho da Silveira e subida para a Sé.
A violência policial estendeu-se pela noite fora, cobrindo a cidade do Porto de sangue e de luto, com dezenas de feridos no hospital.
No dia seguinte, as pessoas desceram em massa à rua de várias cidades, para se manifestar contra a violência brutal exercida pela polícia e o poder, sobre pessoas desarmadas que festejavam pacificamente. Não sei se foi em massa, pois o medo perturba a vontade das pessoas.
Esperei pela manif na rua Passos Manuel, em frente ao Coliseu.
Os manifestantes cobertos de luto desceram lentamente esta rua da cidade do Porto. Na linha da frente segurando uma faixa, vinham as figuras histórias da nossa cultura e da luta anti-fascista. Recordo-me destas, Salgado Zenha, Álvaro Cunhal, Vasco Gonçalves, Virginia Moura, dirigente da intersindical (não me recorda o nome), Octávio Pato, Arnaldo de Matos, e mais umas quantas….que se calhar já ninguém se lembra delas. Curiosamente, quase ninguém do PS! Eu não invento! não estavam lá e pronto!



As pessoas envergavam o luto na roupa, nas bandeiras negras, no olhar e no coração.
Momento único e inesquecível.
Foi uma manif de horas, transversal a toda a sociedade.
O Porto ficou sentido e de luto por muitos anos, e eu, atenta às esquinas da vida, consciente que em qualquer momento podemos estar no sítio errado à hora errada, apesar dos nossos direitos de cidadãos.


Ontem em Lisboa, foi a 3ª manif que mais me impressionou.
Entendi que a melhor forma de chegar a Lisboa, seria integrar-me na estrutura do meu sindicato, para que as coisas corressem de forma organizada e serena.
Saí da zona norte por volta das 8 horas da manhã num autocarro.
Sei que da parte da manha, já tudo se encontrava preparado para dar entrada às centenas de autocarros. Existiu uma ordem para a entrada de tanto professor.
Os autocarros que se aproximavam do norte seriam os últimos a entrar em Lisboa.
As áreas de serviço foram servindo para espaço de espera. Logicamente, a maioria só tomava café e utilizava as instalações sanitárias.
Nem foi necessário avisar que cada um teria de levar o seu próprio lanche para passar o dia.
Os autocarros eram às dezenas em todas as áreas de serviço. Achei interessante como de uma forma natural e despreconceituosa, e com muita camaradagem, os profs homens e mulheres partilharam todas as infraestuturas sanitárias, evitando horas em filas para aceder às instalações femininas.
Ao longo da viagem, todos recebíamos constantes sms de colegas que se viram impossibilitados de nos acompanhar, uns porque estavam doentes ou os filhos, outros, os casais de dois profs, para ir um, teve que ficar o outro com os filhos, outros para não serem demasiado pesados para a família, já tão sacrificada ao longo do ano, assegurando o apoio de filhos de profs que tem a vida de saltimbancos.
Sms que nos desejavam boa viagem e força para não desistirmos nunca.
Estávamos todos ansiosos para chegar.
Os sindicatos não previram que o número de profs cresceria a olhos vistos, após a entrevista com a Ministra na RTP1!
Mas tudo se cumpriu organizadamente para chegarmos no momento certo.
Eram perto das 3 da tarde quando chegamos a Rua António de Aguiar. Seríamos a cauda da manifestação, o que nem por isso foi menos aguerrida e animada. As opiniões registadas nos canais de televisão eram constantemente comunicadas via telemóvel também pelas famílias.
Dos 50 mil esperados, rapidamente se transformaram em 60, 70, 80 e a passar dos 100.000.
O que eu vi?
Vi quase exclusivamente profs, de todas as idades, pessoas informadas, de todos os quadrantes politicos, pacificas e ordeiras, que sabem interpretar muito bem a politica do Ministério da Educação, ao contrário da mensagem que a Ministra tenta passar, que fomos 100.000 ignorantes a passear por Lisboa.
Ainda sobre os números, a policia contou 100.000, as televisões espanholas divulgaram 120.000, considerando a maior manifestação da escola na Península Ibérica. Mas nada disto é relevante para a sra Ministra.
Para quem viveu a manif da indignação por dentro, posso dizer que afinal a minha escola não estava exactamente na cauda. Portanto às 15h estávamos na rua Fontes Pereira de Melo, quando entramos na rotunda do Marques, olhei para trás e ainda havia muito manifestante a descer em massa a rua mencionada, a perder de vista, e já passavam das 18, 30h quando finalmente entramos no Terreiro do Paço.
Ou seja, foram mais de 3 horas e meia para descer até ao Tejo.
A manif era compacta, por diversas vezes foi filmada pelo helicóptero, ainda não vi via tv, mas se passaram, verificaram que tenho razão.
Quando o meio da manif chegou ao Éden, ainda nós estavamos a entrar na rotunda do Marquês.
Bem, foi uma manif grande, fomos mais que muitos, não há duvida que ninguém ficou insensível a isto. Não vale a pena dizer que as escolas estão muito felizes a trabalhar nesta avaliação, porque não estão.
Ao longo da manif acenaram-nos com cravos, bateram-nos palmas, recebemos apoio de algumas associações de pais que não se revêm na CONFAP e que entendem que pais, alunos e professores estão sempre unidos. Não se pode esquecer que 150 mil profs tem filhos que utilizam o ensino público.
A chegada aos Restauradores e o percurso da rua do Ouro, foram pontos altos, onde a voz dos profs cantavam em uníssono: Está na hora, está na hora, da Ministra ir embora!
Quando chegamos ao terreiro do Paço, já Mário Nogueira estava a terminar o seu discurso, e ainda a rua do Ouro estava completamente cheia.
Contei quilómetros de autocarros estacionados na 24 de Julho: filas duplas, triplas, quádruplas… nunca tinha visto tanto autocarro junto.
Cheguei a casa muito cansada às 3 horas da manhã.

Fico com a sensação que participei numa manifestação histórica!
Histórica em números, em organização e em civismo.
Talvez nunca mais se volte a repetir.

Felicito os professores por estarmos unidos; é daí que vem a nossa força. Mas a luta vai ser difícil.
A Ministra continua a rotular esta classe como ignorante e pouco trabalhadora. Este é um discurso que vende bem aos pais que acham que os profs são uns previlegiados, porque têm pausas lectivas, esquecendo-se que é necessário momentos de descompressão no ritmo lectivo, e que esse tempo é utilizado para realizar tarefas de avaliação e reorganização académica, não correspondendo a férias.
A maioria dos docentes são mulheres.
A exploração deste facto como fragilidade já está a ser considerado: Não duvidem!
O suposto imprevisto da polícia ir as escolas na semana passada, é uma tentativa intimidatória perante as mulheres professoras. As mulheres não gostam de andar com os policias atrás!
A ministra sabe bem, que as mulheres têm pouco tempo para andar nestas coisas de manifestações de rua, pois infelizmente além da profissão de docente tem as famílias para apoiar em casa: cozinhar, apoiar os filhos, organizar as rotinas domésticas.
A ministra pensa que se insistir levará a sua vontade para a frente.
A ministra sabe que nos casais de professores, as greves são protestos difíceis de aguentar no orçamento familiar.
A ministra sabe que a classe dos profs tem imenso orgulho em ter o seu registo biográfico irrepreensivelmente limpo.
A ministra sabe que pode puxar a corda cada vez mais, pois as mulheres têm uma capacidade de trabalho imensa, e conseguem abdicar de muitos princípios para não lesar as famílias, as delas e as dos alunos.
Mas lembrem-se que temos também uma grande capacidade de resistência, e a pressa é inimiga da perfeição.
Isto está para durar. É preciso resistir!

Ninguém quer saber se está do lado do SPN, se está do lado ANP,ou de outro…. A indignação não se mede politicamente. É importante estar unido e contem que esse facto será um dos pontos que o poder vai atacar certamente. Vai ser um “dejá vu”, e será importante que sejamos inteligentes e não cedermos à divisão.

Não é por acaso que lembrei as manifs do Porto!

Quando é que o poder consegue perceber que é necessário fazer uma reforma no ensino, séria e participada por todos, e que os profs estão dispostos a isso, independentemente das suas opções politicas? Não aproveitem não! Este momento é único!

«Vou continuar a trabalhar para encontrar as melhores soluções, tal como tenho feito e é o que vou continuar a fazer. Compreendo muito bem as razões da manifestação e tenho consciência que se está a pedir às escolas mais esforço e mais trabalho», referiu em declarações à «SIC» a Ministra da Educação.

- Trabalhe sim, sra Ministra! É para isso que lhe pagam e reveja como trabalho de casa a noção de diálogo, escola democrática, escolaridade obrigatória… e já agora se não for pedir muito, horário de trabalho, igual aos outros cidadãos, e local de trabalho adequado, já que tenho uma assoalhada aqui em casa, que é o prolongamento do Ministério de Educação, sobre o qual nunca me foi pago aluguer. Obrigada. (acrescento, com criatividade pf).
P. S. Não esqueça também de fazer tudo de forma organizada, pois nunca se viu implementar uma avaliação e só passado dois meses é que publica a filosofia do que pretende, tirada um pouco a ferros de duas senhoras da Universidade de Lisboa. Só por isto, um qualquer professorzeco levaria com um insatisfaz.


CONTINUAREMOS DE LUTO! Já que continuaremos professores!




Góticos? Não, de luto mesmo!.


Fotos: Portugal diário

29 fevereiro, 2008

Porque não te calas?


Porque não te calas, Manuel Pinho?