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18 janeiro, 2017

Decidi-me

Decidi-me
                Inicialmente, pensei não escrever a respeito, já que Soares não reúne todos os meus parâmetros para o considerar um herói; surgem-me na memória outros mais qualificados, o que não quer dizer que não tenha sido uma personalidade portuguesa de grande destaque e um anti-fascista que merece o meu respeito. Após ter observado o muito do que se publicou nos meios de comunicação social e especialmente nas redes sociais, decidi-me.  
                Capas de revista, 1ªas páginas dos jornais, exibiram as fotografias de Soares, preferencialmente de várias décadas atrás. Os programas televisivos dedicados ao futebol, que lotam as noites de segunda-feira, e que me fazem doer a paciência, foram adiados ou resumidos, pois falar de Mário Soares teve prioridade nos primeiros dias após a sua morte, suponho preparada. No facebook cada um publicou ou partilhou algo sobre o tema, bitaites, escrita escorreita, likes e deslikes,…           li muita grosseria e muito elogio exagerado, palavras que oscilaram entre os extremos, a paixão inflamada e o ódio requentado -  intervenções politicamente correctas, depoimentos estilo cobardolas, senhoras a desfazerem-se em lágrimas como se tivessem grande intimidade com o nosso ex-presidente da república, flores em grinalda e uma cerimónia nos Jerónimos bem concebida, sóbria e de bom gosto. Não percebi a charrete puxada a cavalos, no século XXI...
                Alguns aproveitaram para exibir ódios antigos, exteriorizando insultos e má educação, sem qualquer tipo de filtro, dando visibilidade a muita ignorância, ressentimento e deselegância. Tiveram todos os dias de vida de Mário Sores para vomitarem os seus ódios, dispensáveis na sua morte e nos momentos de luto dos que lhe são próximos.
                Li também elogios rasgados e inesperados, vindos de adversários políticos. Apreciei.
Percebi que a maioria dos portugueses colou a democracia a esta personalidade, principalmente a grande família socialista. Chamam-lhe Pai da Democracia, esquecendo-se que houve muitos pais e muitas mães igualmente importantes, alguns caídos no Tarrafal.
                A morte de Soares abriu novamente as mesmas feridas que ainda, ou nunca serão saradas, sobre a descolonização. Aquela ideia que a nossa sociedade conseguiu, com inteligência e com tolerância, integrar os regressados do ultramar, possui também muitas fracturas, muita dor, muitos dramas, que alguns ignoram e outros querem esquecer, disfarçados pelo tempo, que corre rápido, bálsamo da vida e das consciências, grande aliado do esquecimento. No processo de descolonização inevitável, as pessoas foram esquecidas, tanto os portugueses nascidos deste lado, como do outro, mesmo os socialistas que também os havia… há ainda muita história para desbravar e registar, muitos silêncios que teimam em queimar a dignidade humana, muitos dissabores que prevalecem e alguma dignidade a resgatar.
                … e muitos esquecem que o europeísta que tanto admiram, meteu várias vezes o socialismo e o humanismo na gaveta. Nunca foi fácil agradar à direita e à esquerda, a gregos e a troianos e o fio da navalha brilhou diversas vezes.
                Confirmei mais uma vez, que os regressados das ex-colónias nunca lhe perdoarão a infeliz resposta à pergunta sobre o processo de descolonização:
                - O que se há-de fazer a esses brancos?
                - ATIRÁ-LOS AOS TUBARÕES! (resposta atribuída a Mário Soares)
                Nunca se provou a veracidade desta afirmação e também, quanto eu sei, o próprio nunca a desmentiu, apesar que não imagino Mário Soares a autorizar tamanha barbaridade.
                Talvez Soares tivesse sido herói, se não tivesse co-existido com várias outras personalidades, grandes lutadores anti-fascistas e amantes da liberdade,… alguém comparou os funerais de Cunhal e de Soares. Pois!!!! Este último parece que teve tudo, menos gente. Cada um que conclua.

                Muitos portugueses tiveram sapos para comer e eu comi o meu, direitinho sem hesitar. Mesmo com os tubarões lá no passado do mar alto… respirei fundo, fechei os olhos, apertei o nariz e engoli…  depois tomei um kompensan! Mal por mal…

Publicado em NVR  !8/01/2017

11 julho, 2015

Camaro lindo


Camaro Lindo

                Um amigo meu, olhou-me de soslaio com olhar crítico, pensando que eu tinha enloucado, quando afirmei que até do cheiro a combustível queimado, eu tinha saudades. Gostava do som dos motores, dos arranques, do chiar dos pneus nas curvas, dos estampanços… Claro que era eu a dissertar sobre as corridas de Vila Real, realçando que várias gerações vibram ou já vibraram com este grande evento de rua, que Vila Real se habituou a ter, umas vezes tendo e outras não tendo, mas fazendo parte da identidade desta cidade e dos seus cidadãos. Velhos e novos, geralmente gostam dos motores a acelerar. Venham-me dizer que o som dos automóveis é todo igual… não é mesmo! Em 1931 que este gosto germinou e cresceu até hoje, com muitas intermitências, alimentando as emoções, as vivências e constituindo memória logo após a chegada dos automóveis à meta.

                Costumo receber os meus amigos em Trás-os-Montes, brindando-os com uma miniatura de um pucarinho de Bisalhães atada a um texto de Camilo Castelo Branco. Depois numa segunda volta, ofereço um livro da Graça Morais, “ilustrado” com o Reino Maravilhoso de Torga. Numa terceira volta, é um livro sobre as corridas de Vila Real que eu selecciono para oferecer. Este evento, só da minha parte, já correu mundo: Brasil, Canadá, Austrália, India, Rússia, Chile… levar Vila Real a todos estes lugares, é obra! Alguns maluquinhos das máquinas corredoras, não sabem bem se Portugal é uma região de Espanha, mas sabem onde fica Vila Real das corridas pelo seu circuito urbano.

                Nesta cidade, sou sempre um ser de passagem e portanto não fui assídua entre os motores, mas fui assistindo à mudança das metas: primeiro em frente ao parque florestal, depois na avenida Aureliano Barrigas, Mateus e no sítio actual. Comecei o meu currículo, ainda muito criança, em Julho de 1966.

                Não posso deixar de escrever que assisti a uma final memorável, em 1973, na sua 20ª edição, entre Ernesto Neves e Pêquêpé, ambos corriam com Chevrolets Camaros, de trabalhar inconfundívelmente manso, sereno, eficaz e silencioso, primos direitos de um carro do meu pai, que nos tinha transportado até à aldeia da Bouça, para vermos as corridas no percurso de Abambres. Foi emoção até ao fim, num despique frenético… Emoção, ansiedade, nervosismo, roer de unhas, palmas e palmas, para o Camaro lindo, amarelinho, que acelerava potentemente estrada fora e nós em cima de um muro, virando rapidamente a cabeça para acompanhar a velocidade ao passar, sob um sol escaldante do mês de Julho.

                Durante alguns anos, assisti na curva da salsicharia, ou curva da Areias, que remata a ponte metálica… o melhor sítio para ver e ouvir a curva e por vezes, presenciar a lata a bater nos railes, circunscrevendo alguns peões no desfazer da curva, desenhada em ângulo recto entre as casas novecentistas. Punha uma mesa grande, recheada de deliciosos petiscos de Vila Real e muita bebida… sempre abastecida durante 3 dias, apoiando os treinos e as finais, para a família e para os amigos, que iam rodando em minha casa, assistindo com visão privilegiada em plano picado, sobre os automóveis em movimento. Ter os automóveis a correr à porta de casa, gerava conflitos óbvios com as entradas e as saídas, dos que já nasceram velhos e com mau feitio.

                Numa cidade deserta de eventos como era Vila Real há uns anos atrás, as corridas eram o raio de soll que batia para cá do Marão. Não interessava apenas o espectáculo em si, anunciado, organizado num calendário, com horas marcadas e pista vedada… durante a noite, nascia uma festa dentro de outra festa. Os mais fanáticos, loucos, divertidos e palhaços, criavam a corrida dos aceleras, que tinha tanto de hilariante e divertida, como de perigosa e inconsciente. Jogava-se de gato e de rato com a polícia, numa corrida clandestina de veículos barulhentos, feitos de lata velha e sem matrícula, que arriscavam tangências, peões, engasgadelas de motor e outras peripécias improvisadas, colhendo grandes aplausos das plateias já organizadas para o efeito. Todos calçávamos sapatilhas, no caso de ter que lhes dar corda e rapidamente ir para os locais vazios da polícia, ou ter que escapar a situações complicadas. Isto passava-se depois das 22h e estendia-se até às tantas.  

                Não há gosto sem desgosto! Tenho engolido rotundas limitadas por pneus, semi-rotundas, “uma espécie” de rotunda, trânsito condicionado, vedações e rails… quando se fazem opções, ganha-se e normalmente sempre se perde alguma coisa. Eu que não me sensibilizo com as grandes questões da mecânica e muito menos de competição, desconhecendo a função e a articulação entre motores, escapes, válvulas, carburadores, turbos, mergulho nesta adrenalina das 4 rodas, nem sei bem porquê. Até me agrada o cheiro do combustível queimado e o ronrorar dos motores são música para os meus ouvidos! Venha o diabo e o Deus explicar isto, mas que se sentem numa bancada para assistir a uma final. Tragam chapéu!

04 julho, 2015

Normal, normal


NORMAL, NORMAL

                Parece que temos a melhor colecção de coches do mundo. Não sei, mas o que temos é francamente belo e deslumbrante sem dúvida alguma, constituindo uma grande riqueza patrimonial. Já conhecia muitos dos exemplares expostos no novo museu, das visitas ao Museu dos Coches original e também do Palácio de Vila Viçosa. A maioria são peças sumptuosas, algumas barrocas, cheias de detalhes, viaturas de gala e de passeio com tracção animal, construídas essencialmente em madeira, entre o século XVI e XIX, para apoiar as deslocações da realeza portuguesa e dos seus visitantes.

                Sempre que me deparo com uma viatura destas, imagino a história da gata borralheira. Através da magia, a fada madrinha, voluntariosa, transformava rapidamente e apenas com a sua varinha mágica, uma abóbora, numa esplendida carruagem, sem perceber patavina de mecânica ou de marcenaria, sem fazer projectos, maquetes e protótipos e, sem programas 3D e sem caderno de encargos, sem estar muito preocupada com as leis do movimento, da aerodinâmica, da ergonomia e certamente analfabeta em álgebra, aritmética e geometria, pois o prazo de validade das suas criações nunca ultrapassava a meia-noite, prazo muito reduzido, quase equivalente ao leite sem lactose ou ao requeijão (eheheh). Depois regresso ao mundo real e sabendo que ainda não possuímos essa maravilha tecnológica, dos contos de fadas, que é a fabulosa varinha, situo-me, vejo e avalio o trabalho manual na construção de cada pormenor, com as ferramentas da época e agora as operações de restauro, que suponho serem realizadas em continuidade, por especialistas nestas coisas do carbono, da ferrugem, do caruncho e das térmitas mais estranhas que adoram estar e reproduzirem-se nestas reais velharias, expostas à humidade, à temperatura, à pressão atmosférica e à luz, gerando mofos, bolores e outros agregados familiares pouco recomendados.

                Desculpem as ironias, mas eu quero mesmo falar do edifício. Para mim foi uma decepção já anunciada pelo que se foi tornando visível durante a obra, semi-escondida e semi-visível. Nos dias de hoje, fazer uma edificação daquela natureza, dimensão e custo, sem que ela garanta também, para além da funcionalidade a que foi destinada, uma afirmação estética ao nível da arquitectura do seu tempo, capaz de ser uma mais-valia numa cidade, que marque a contemporaneidade de forma singular, é um verdadeiro tiro no pé. Este edifício concebido pelo arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha Prêmio Pritzker, em parceria com os ateliês dos portugueses Ricardo Bak Gordon e Nuno Sampaio integra o grupo de edifícios de Lisboa que não acrescentam nada à cultura arquitectonica portuguesa e espero que não seja outra socratice realizada nas entrelinhas. 35 milhões de euros previstos inicialmente para o custo da obra, ir-se-ão transformar entre 200 a 300 milhões de euros, quando ela for concluída. Entregaram-se projectos e obras a quem não sabe fazer orçamentos ou os minimiza.

                Um dos co-autores afirma que pretende "fazer cidade a partir da arquitetura" – pretende, mas não consegue. Fala bem, argumenta melhor, cria uma teoria estruturante entre o edifício e a envolvente, mas na prática, resolveu de forma vulgar, sem brilho, sem originalidade, sem genialidade, que a localização e o programa mereceriam.

                É pouco provável que alguém se desloque de propósito a Lisboa para ver este edifício, por isso não fará cidade, certamente. Há edifícios contemporâneos que fazem cidade ou já fizeram, levando apreciadores de arquitectura a Lisboa, na época em que foram construídos ou até mais tarde: o Centro Cultural de Belém, o Oceanário, a Torre VTS, o Teatro Camões, o edifício Vodafone, a Caixa Geral de Depósitos, o Franjinhas, a Torre do Tombo, a Gulbenkian, o Pavilhão de Portugal, o Adamastor, o Multiusos, o novo Estoril Sol (Estoril), a Fundação Champalimaud, a Mesquita de Lisboa, A Gare do Oriente; o Museu Paula Rego (Cascais), a Universidade Nova de Lisboa, a Torre Monsanto, o Centro Ismaelita, o Heron Castilho, as Torres das Amoreiras, o Castil, o Pavilhão do Conhecimento e a até aquela igreja louca, inacabada, do Troufa Real, esta pelas piores razões… Neste momento para fazer cidade (Lisboa) é preciso ultrapassar ou ombrear minimamente com Siza Vieira, Teotónio Pereira, Vittorio Gregotti, Eduardo Souto Moura, Peter Chermayeff, Gonçalo Byrne, Charles Correa, Tomás Taveira, Calatrava, Frederico Valsassina, Arsénio Cordeiro, Conceição Silva e outros. Lisboa já tem uma coleção de boa arquitectura contemporânea e portanto é preciso merecer para fazer cidade, não basta querer.

                Dizem-me que a obra ainda não está concluída, que faltam grandes painéis multimédia nas paredes nuas interiores. Quanto a mim animará e enriquecerá o conteúdo, mas não o edifício em si. Sorrio-me com as características apontadas pelos comentadores e jornalistas, utilizando as palavras, geometria, brutalismo e minimalismo, como se isso justificasse a pobreza estética do edifício e a falta de genialidade manifestada pelos seus autores.

78 peças - coches, berlindas,  carruagens, cadeirinhas, carrinhos, liteiras, seges... expostas num edifico normal, normal (imitando Ricardo Araújo Pereira no seu boneco de calceteiro), que bem precisaria de uma varinha mágica com efeitos especiais e permanentes.

Vale a pena visitar, pelos coches. O resto funciona, mas não surpreende.

AQ – publicado em Revoltando os dias  no NVR 1/07/2015

28 junho, 2015

Entardecendo com Berlim


Entardecendo com Berlim

                Talvez fosse o último país para eu visitar. O preconceito de visitar um território feito de histórias complicadas e de difícil digestão, onde o nazismo vingou por um período de tempo, agredindo o mundo e a humanidade e pondo de luto a história do século XX, possuía-me desde sempre. Os alemães não são todos iguais, passou mais de um lustre de história, eu sei, mas Hitler falava às massas, com os seus discursos inflamados e as massas estavam lá para o ouvir, para o aplaudir e para o seguir. Isso é inegável.

                Sabemos que Hitler tinha consigo o génio da época da propaganda dos ideais, Joseph Goebbels defendendo que, uma “Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”, aglutinando multidões e alucinando coletivamente milhares de jovens em torno do nazismo e do seu Führer,… mesmo assim eles estavam lá, aplaudiam e deixavam-se seduzir. E não eram poucos e não desapareceram com o final da 2ª guerra. As imagens do ditador, fazem parte da minha formação cinéfila, tal como a de muitas gerações pós-guerra e moldaram o  meu desejo de conhecer o mundo sempre orientado para outras paragens. Era como se no mapa da europa não existisse tal país.

                A oportunidade de visitar Berlim bateu de frente com este preconceito e foi-se diluindo durante a minha permanência, através da evidência da história da cidade dividida e da cidade reunificada, com os últimos 25 anos de arquitectura  contemporânea, o meu ópio para muitas dores. 

                E tudo superou as minhas expectativas.

                Berlim é uma cidade martirizada pela história, uma cidade de muitas histórias violentas, que parece ter renascido após 1990. Evoquei a transmissão em direto pelas televisões do mundo, do concerto memorável do grupo Pink Floid, tendo adaptado a música The Wall, concebida alguns anos antes para outras circunstâncias. Li em Berlim um esforço meritório para unir a cidade, transformando as fronteiras de duas cidades forçadas a virarem as costas durante a guerra fria, num centro de grande interesse a muitos níveis. Berlim não é uma cidade para turista ver, é uma cidade construída para os alemães, dando resposta sempre aos seus interesses de cidade martirizada, mas capaz de curar as suas feridas.

                Olhei ao longe a obra de Siza Vieira, Bonjour Tristesse, que me transportou para outras histórias de outros lugares, não menos tristes e sem qualquer anúncio de um dia bom. Visitei o memorial do Holocausto, projeto de Eisenman, que consta de uma escultura gigante feita de blocos que, em planta, são todos rectângulos cujas dimensões me evocam sepulturas implantadas ordenadamente, mas cuja volumetria causa sensações de labirinto, de desconforto, de confusão,… Visitei também Daniel Libeskind… e o resto foi a festa da arquitectura, vidro e vidro, aço e vidro, transparências e reflexos, rua sim, rua sim, praça sim praça sim.

                Num sábado ao fim do dia, sentei-me olhando as pessoas aproveitando os últimos raios solares, deitadas pacificamente na relva da praça da catedral, no chão onde Hitler proferiu um dos seus discursos mais exuberantes da história, Lustgarten. Peguei no telemóvel e escrevi:

“19h43m num cruzamento de várias realidades e sensibilidades, com a história - um relvado, uma fonte, um rio, uma música clássica voando em sintonia com a brisa semi-nocturna, o museu de artes como cenário de lusco-fusco a catedral à sua direita. Relaxamento de pessoas que parecem pacíficas, numa urbanidade multicultural e multicolor, que pretende sossegar consciências, através do seu desenho urbano planeado, numa epopeia de raios laranja dum pôr-de-sol germânico. Talvez nunca mais estejamos comungantes deste espaço, talvez este seja um momento único na vida de todos, numa letargia de cansaço provocado por muitos e muitos quilómetros a percorrer e a conhecer esta Berlim feita de tudos e de nadas. Talvez não nos encontremos jamais, mas estamos aqui hoje, neste relvado simbólico, entardecendo com Berlim. Um frontão grego e colunas dóricas a dialogar com capitéis coríntios, afirmando modelos provenientes da Grécia antiga, grande berço da arquitectura, da filosofia e da democracia, permanente do orgulho dos conceitos de humanismo do ocidente, que afinal, não sei se todos teremos. O sol põe-se, vai iluminar outras urbanidades do mundo e para onde vai cada um de nós?” 
Publicado em NVR

06 maio, 2015

SOU UMA BABY BOOMER e não sabia, mas estou bem, obrigada.


SOU UMA BABY BOOMER e não sabia, mas estou bem, obrigada.

            Sou um misto da geração Baby Boomer e da geração X, escrevendo num computador e usufruindo de algumas ferramentas da geração Z. Não dispenso a televisão, nem a internet, mas junto-me aos amigos para conversar e para me divertir. Leio livros em qualquer suporte e utilizo as web2.0.

            Não entendem o que estou a escrever? Não sou socióloga, mas sei que as últimas gerações encontram-se tipificadas segundo características… afinal, o mundo tem-se alterado rapidamente e tipificar facilita o entendimento entre todos. Achei piada às denominações, que também só por si espelham as grandes mudanças dos séculos XX e XXI.

            Antigamente as gerações sucediam-se aproximadamente de 25 em 25 anos e o mundo rodava muito devagar; quanto mais antigamente, mais devagar o mundo rodava, mas conservando sempre os minutos, as horas, os dias e os anos, do grande relógio do universo.

            Atualmente, o relógio é o mesmo, mas as gerações sucedem-se mais rapidamente, de 10 em 10 anos e estão catalogadas da seguinte forma:

Boomer – Nascidos durante a 2ª guerra, hoje aposentados, são pragmáticos, disciplinados, leais e admiram a autoridade. Sofreram na pele os conflitos mundiais potencializados pela 2ª guerra mundial. Foram criados em casa, pelos próprios pais, orientados pela moral e os “bons” costumes e são carentes de habilidade tecnológica.  

Baby Boomer (explosão de bébés, crescimento demográfico) - Nascidos após a guerra, hoje têm mais de 45 anos, com grandes capacidades de inovação, inventores de “Make love, not war” e têm aversão aos exercícios bélicos. Favorecem as artes como forma de evolução humana. O Woodstock e a guerra do Vietnam são pontos de referência nesta geração que estudou as ideologias e viveu as “ revoluções” dos anos sessenta e setenta (emancipação da mulher, movimento hippie, Che Guevara, liberdade sexual, direitos civis, Martin Lutter King, ida à lua, rock and roll e a TV). Muitos ocupam hoje cargos de chefia e privilegiam a gestão dos conflitos, num quadro de valores libertários e otimistas, com ideais humanistas. Assistiram ao nascimento da tecnologia. Desafiam o sistema onde actuam pois têm uma “genética” revolucionária. Apesar de tudo é uma geração próspera, com alguma inabilidade tecnológica, mas riquíssima em experiências vivenciais.

Geração X - É a geração percursora dos recursos tecnológicos, nascida nos anos setenta, mas um pouco formatada, resistindo à inovação, sofrendo de alguma insegurança em termos profissionais e pessoais. É a geração do aparecimento da SIDA, da popularização do divórcio e do multiculturalismo, mesmo assim deseja estabilidade, equilibrio e tranquilidade. É a primera geração que domina verdadeiramnete os computadores, partilha informação e realiza trabalho de equipa. Viveu em pleno a bipolaridade da guerra fria.

Geração Y – Contemporâneos da queda do muro de Berlim, nasceram na década de 80 e num curto espaço de tempo viveram os grandes avanços da tecnologia, desenvolvendo-lhes a capacidade de realizar várias tarefas ao mesmo tempo – navegar na net, ler emails, ouvir musica, escrever, falar ao telemóvel – alterando os seus hábitos (menos televisão e mais computador). A geração Y ambiciona novas experiências e quer rapidamente chegar ao topo das profissões. Quer movimento, inovação, rapidez, já que as solicitações são cada vez maiores e efémeras. Para alcançar o topo, sacrifica-se seja quem for, doa a quem doer. Tem dificuldade em entender o mundo sem tecnologia. Os seus elementos vivem um permanente conflito, são consumidores compulsivos e tem preocupações ambientais. Saem cada vez mais tarde da casa dos pais, trabalham para viver, recusam trabalho servil e buscam mais lazer.

Geração Z- Nascidos no final dos anos 90, são os verdadeiros nativos digitais, que ainda não estão inseridos no mercado de trabalho, mas já se constituem problemáticos para as gerações anteriores. Estar sempre conectado com o mundo é a linha que traça o seu perfil individualista, antissocial e que zela pouco pela sua privacidade. Nunca viveram num mundo sem computadores pessoais, telemóvel, mp3, internet, playstation… Têm uma capacidade de entendimento do mundo digital muito superior do que as gerações anteriores, mas não sabem brincar ao ar livre, não sabem fazer amigos reais e levam uma vida sedentária, com grande percentagem de obesos. O mundo real e a família secundarizaram-se. Vivem apenas o presente, com pouca paciência para as gerações analógicas e são um pouco desumanizados. Vivem em rede virtual, são inteligentes e tolerantes perante outras culturas, mas não sabem trabalhar em equipa.

            Como sou uma Baby Boomer acredito na gestão de conflitos entre gerações, transformando os constrangimentos em oportunidades de aprendizagem.

            Todas as gerações tem a aprender umas com as outras. Sempre foi assim.

            Qual é a sua geração? e o que virá a seguir?
 
AQ (revoltando os dias)
Publicado em NVR

24 abril, 2015

Revoltar abril



REVOLTAR ABRIL

                Constato como se sentem penalizados, aqueles que ouvem falar da revolução de abril, mas não tiveram oportunidade de a viver, ao vivo e a cores, aqui tão perto, tão imprevisível, tão genuína e tão pensada, porque simplesmente ainda não eram nascidos ou então, eram crianças e tudo lhes passou ao lado. Ainda hoje, preparando a data, eu recordava abril com um colega e os outros ao lado, viraram-se para nós, para ouvir melhor o que contávamos sobre os anos de 74 e 75.

- Oh! quantos anos tinhas em 74? Certamente ainda comias cerelac!!!!- perguntei e afirmei eu provocatoriamente.

- Tinha 4,… tinha 5,… ainda não tinha nascido…. Responderam com olhar triste, pois faltou-lhes um “bocadinho assim” para viverem um grande momento histórico, que aliado à irreverência da juventude, se tornou uma marca que une toda uma geração.

                Geração que hoje, olha tudo com uma enorme consciência critica, sobre a situação actual deste pais pretensamente democrático, sobre algumas atrocidades feitas em nome da liberdade e afirmando que ainda há muita história por contar, porque não convém que se conte por enquanto, mas não conseguem fingir um brilho de olhar, recordando aquela época.

                Recordámos os grandes murais pintados nas ruas, onde apareciam sempre a foice e o martelo, realizados pelo PCP e pelo MRPP. Recordámos os cartazes e os autocolantes – as artes gráficas ainda sem recursos tecnológicos ao serviço das máquinas partidárias. Recordámos essencialmente as frases bombásticas, que apareciam nos sítios mais inesperados e emanavam um sentido de humor fabuloso. Não saberemos nunca quem as inventou, a maioria assinada pelos anarquistas (o A maiúsculo rodeado de uma circunferência), mas algumas perduram nas nossas memórias, já perdidos os contextos e as circunstâncias, mas recolocando um sorriso nos nossos lábios, a saber:

- Abaixo a foice e o martelo, Black and Decker ao poder!

- P—as ao poder, porque os filhos já lá estão!

- O socialismo está em construção, visite o andar modelo.

- A China vai de Mao a pior!

- A Madeira tem caruncho!

- Abaixo o odor corporal!

- Abaixo os ovos estrelados, os pintainhos tem direito de nascer!

- Abaixo a reacção. Viva o motor a hélice!

- Mortos da valas comuns, ocupem os jazigos de família, já!

- Se Deus existe, porque não se recenseou?

- O povo unido não precisa de partido.

- Abaixo o sabão amarelo, abaixo a tinta da china! Independência Nacional!

- Abaixo o café de saco e a cevada, cimbalino ao poder!

- Mais vale uma na mão, do que duas no soutien!

- Promoção imediata do leitão a porco.

- Não há eleições. D. Sebastião volta para a semana.

- Deixemo-nos de Barreirinhas, vamos ao salto em altura.

- O Governo é uma m--da. De quem é a culpa, da m--da ou do Governo?

- Queremos dormir com as nossas mulheres!

- Nem mais um anticiclone para os Açores!

- Nem mais um faroleiro para as Berlengas!

- Os galos pedem a nacionalização dos ovos.

- Anarquia sim, mas nem tanta!

- Viva isto, seja á o que for!

                Muito ainda se irá recontar sobre Abril e certamente também esta faceta alegre e satírica dos jovens libertários.

AQ

Publicado em NVR

21 outubro, 2014

premio empreendouro 2014


Posso finalmente divulagar os meus cartazes candidatos ao concurso empreendedouro 14.

Não fui selecionada e garanto que os trabalhos selecionados não foram os melhores. De facto o gosto é discutível, é bom discutir o gosto, e o gosto dos júris ~´e muito discutível.

Foram seleccionados cartazes que resultam apenas de um bom programa de fotografia que faça tratamento artístico, forma selecionados cartazes com uma composição gráfica pouco estética… enfim. Dá vontade de não participar mais, nem motivar que outros participem acreditando que a qualidade vencerá..

Não sinto dor de derrotada, pois ando nisto há muitos anos, e o meu entusiasmo por um projecto deste género, basta. O que me motiva verdadeira mente é  ter oportunidade para ser construtora é isso que me premeia como pessoa e artista- Tenho pena que não exibam on line todas os cartazes candidatos para que o publico tenha oportunidade de constatar a avaliação que foi realizada. Exibem apenas 10 cartazes escolhidos para se votar on line.
Ver projectos categoria 5
http://premio.empreendouro.pt/Pages/Projetos.aspxrojectos categoria 5

 
OS MEUS CARTAZES 

 

MEMÓRIA DESCRITIVA

TÍTULO: O futuro é d’ouro

A proposta apresentada foi criada essencialmente através do recurso fotográfico.

A junção da imagem de uma menina de sorriso meigo e doce (como o porto branco), a um pormenor arquitectónico, desenhado por Nicolau Nasoni, tem a intenção de colocar em diálogo, o antigo e o contemporâneo.

Nicolau Nasoni, arquitecto italiano da época barroca, que deixou imensas marcas neste vasto território do Douro, continua a ser uma potencialidade cultural desta região, no presente e no futuro.

As geometrias do barroco, expressas na arquitectura religiosa e na arquitectura civil, evocam as linhas dos socalcos, as progressões do crescimento dos braços da planta trepadeira que é a parreira, e as gavinhas que assumem a parte mais delicada e eficaz do crescimento da mesma. As linhas onduladas dos cabelos da menina e toda a expressão sorridente e concordante das linhas curvas do seu rosto, representam as gerações vindouras que continuarão a valorizar esta região e a preservar a linha de água que é de ouro tal como o seu futuro. Toda a região do Douro tem uma geometria rebuscada gémea do barroco, relaxante, sorridente que a converte única e inesquecível.

As gentes, o património cultural e o vinho são o ouro desta região – a consolidação no presente e a esperança no futuro.

Motivação – Expressar artisticamente algo que é único no mundo, o Douro. O Douro  não seria o mesmo Douro, sem o seu património construído, barroco, muito articulado com o grande arquitecto Nicolau Nasoni. O barroco confere a toda a região distinção e erudição., convertendo-se numa valia adicional ao vinho do Douro.

Identificação de lugares - O pormenor apresentado foi recolhido na fachada principal da capela localizada no solar de Mateus em Vila Real e abre-nos caminhos para além do vinho, direccionados para diversas vertentes do património cultural comum a toda a região.

 

MEMÓRIA DESCRITIVA

TÍTULO: Douro – é aqui

                Apresenta-se proposta globalizante do que é o Douro.

                A listagem dos concelhos cria um bloco único de cumplicidade e labor, criando o equilíbrio com as linhas das vertentes, traçadas como gesto duplo desenhado de uma só vez, como se o Homem tivesse o poder de rasgar o espaço e impor-se sobre a natureza.

O Homem teve e tem esse poder.

“Deus desenhou as montanhas através de um rio de ouro e o homem teve a inteligência e o empenho de as “socalcar” com muros de suporte em xisto e enxada para obter o melhor vinho do mundo.” Esta frase escrita pela autora reforça a imagem e surge assumidamente na composição gráfica. Todo o cartaz é sóbrio para que o cacho de uvas, desenhado no espaço de maior visibilidade, se expresse em todo o seu esplendor.

Motivação – Responder a um desafio para promover o Douro, evocando Deus de forma simbólica como o grande arquitecto de toda a região, já que a paisagem é divinal e única no mundo.

Identificação de lugares – Todos os conselhos.
 
 
 

MEMÓRIA DESCRITIVA

TÍTULO: Douro - A linha que une

            A proposta apresentada evidência de forma minimalista e contemporânea o relevo das margens do rio Douro e o elemento que as une, numa linha ziguezagueante, única no mundo, expressando o encontro feliz dos três elementos.

            A riqueza paisagista, enriquecida pelos socalcos criados e recriados pelo suor do homem do Douro, oferece-nos diversos planos, que vão escondendo o rio e vão cultivando o nosso imaginário, recortado de uvas e sabores generosos, que contribuem para o desenvolvimento dos lugares, dos sítios, dos pequenos aglomerados habitacionais, sintetizados nos diversos concelhos, que dão consistência à tal linha que une, o rio Douro.

            O impacto deste cartaz constrói-se a partir da junção de uma moderna simplicidade da linha – a definição do relevo apenas com linhas coloridas distintas, porque cada encosta é única – com a complexidade e   força da escrita, transformada em textura líquida simbolizando a dependência dos lugares em relação à linha de água e ao micro clima que permite o cultivo deste vinho único no mundo.

             A cor que domina o cartaz associa-se à cor do vinho, induzindo de imediato a potencialidade global desta região. É também uma cor quente que tenta captar a parte psicológica do receptor conferindo sensações de conforto, bem-estar, bom acolhimento e relaxamento que toda esta região pode proporcionar aos seus visitantes.

Motivação – Juntar a criatividade  minimalista ao Douro, convertendo os concelhos e as sua gentes, nos grandes agentes dinamizadores desta região.

Identificação de lugares – Todos os concelhos
 

24 abril, 2014

Afinal onde é o meu lugar

Afinal onde é o meu lugar? 
            Por onde andava eu há 40 anos atrás???
            O dia 25 de abril de 74 apanhou-me a sair da adolescência, numa idade em que já era uma observadora atenta do que me rodeava, sensível aos ideais ligados à igualdade e à fraternidade multicoloridas, conscientemente contra o “orgulhosamente sós” de Salazar, mas ainda saudavelmente ingénua e cheia de sonhos.
            Como estava no hemisfério sul, só tive conhecimento da revolução no final do dia seguinte, muito em segredo antes do jantar, deixando-me de orelhas em pé, pois a referência segredada foi segredada entre adultos apenas. Pareceu-me nascer ali um entusiasmo cauteloso, que me fez ansiar pelos jornais do dia seguinte, para finalmente ver Spínola como grande herói, com fotografias de página inteira, remetendo Otelo para segundo plano e Salgueiro Maia para terceiríssimo e desvalorizado plano. Nessa altura não me apercebi disso, logicamente. Incomodava-me aquele monóculo e o pingalim que segurava na mão, desconfiando da personagem, que tais objectos transportava, parecendo-me mais um tirano do seculo XIX, do que um revolucionário do século XX. Aquele monóculo nada tinha de modernidade. O modelo era Che.  
           
Nos dias que se seguiram, o monóculo virou moda e era simulado de forma irreverente por caricas de coca-cola, para posarmos nas fotografias de grupos de amigos adolescentes, crentes num futuro risonho e livre. O poster de Che Guevara colado nas paredes dos quartos, os discos clandestinos de Zeca Afonso, a ideia de um líder chamado Agostinho Neto, deixou de ser utopia e passou a ser tema de conversa constante, num processo de descoberta e aprendizagem rápida da democracia e da liberdade. Eu vivia com o BO (bairro operário) mesmo ao lado, suscitando muita conversa clandestina que o meu espirito curioso retinha, nos anos de adolescente. Contavam-se histórias… o cartão de visita da miscigenação urbana não colhia no meu lado, impulsionando diversas questões que eu ia organizando na cabeça, e que todos omitiam os esclarecimentos de que era ávida.
            Nada mais foi igual, a sociedade de Luanda entrou em sobressalto progressivo. A ideia doce e romântica de uma independência desejada e de um salto de liberdade para um futuro de todos, rapidamente se transformou numa contagem decrescente para a guerra civil, que tal como todas as guerras são injustas, sangrentas, desumanas, mutiladoras e trágicas. A descolonização rápida, necessária, mas pouco eficiente e nada assertiva, gerou meio milhão de retornados e refugiados, seres humanos desprotegidos, incapazes de se organizar e lutar pela sua permanência nos territórios independentes, que apenas tiveram como alternativa, a saída.
            Percebi, com 16 anos, que não tinha autonomia para tomar decisões sobre a minha vida e para a minha vida. Descobri que devia obedecer às decisões dos meus pais, mesmo que me desagradassem profundamente. Constatei que não era suficientemente crescida para viver sozinha na terra que me viu nascer, nem era suficientemente criança, para tudo me passar ao lado.
            Após poucos meses do 25 de abril, anunciaram-me que tinha duas horas para me despedir de Luanda, pois provavelmente iria ter um bilhete de ida para Lisboa, sem volta. Já passava das 18h30m.
            Não fui ouvida, nem achada!
            Trinta minutos foram para comprar dois agasalhos, um casaco de lã azul e uma camisola roxa, que por mero acaso e sorte havia numa loja junto ao local onde vivia. O resto foi a despedida. Despedi-me de lágrimas nos olhos, e vários nós na garganta, de uma cidade linda. Ao longo desse tempo, revi alguns momentos das minhas vivências frágeis e ingénuas, que farão eternamente parte de mim, retive no olhar sítios da minha terra de nascimento e de coração. Faltou-me o tempo para me despedir de amigos, para anotar contactos, para criar novas pontes de ligação para o futuro. Nem queria acreditar que não voltaria, que poderia nunca mais ver e estar com os meus amigos. Algo desconfortável e cada vez mais aterrador se instalou na minha racionalidade, tornando-me incapaz de tudo, excepto obedecer.
            Naquela noite, cresci de repente vários anos. Passei a ser adulta da noite para o dia seguinte, lutando entre duas lógicas, a minha lógica dos afectos e a lógica da descolonização, indiscutivelmente necessária, quanto a mim. Eu já entendia a democracia como meta maior, já tinha observado a digestão difícil de várias revoltas e era sensível ao conflito implícito da acção colonizadora.
            As luzes reflectidas na água negra da baía de Luanda, assumiram formas irregulares e esborratadas, resultantes da luz e das minhas lágrimas silenciosas, que teimavam correr-me pela face enquanto viajava no banco de trás do automóvel do meu pai em direcção ao aeroporto. Conferi cada rua, cada avenida, cada cruzamento… olhei pela última vez os sítios onde me encontrava com os meus amigos.
            No dia seguinte, passei a ser refugiada em terra europeia. A coincidência entre duas realidades: a minha realidade geográfica intersectada com a minha realidade afectiva, temperada pela revolta da não decisão. Entrei num mundo sem fortes referências para mim, onde decorria uma revolução com alguns contratempos pelo meio - eu, cheia de contradições e com novas e maiores responsabilidades, um pouco entregue a mim mesma. O rótulo de retornada e não progressista também se colou a mim em algumas situações menos felizes na integração na sociedade portuguesa. A desconfiança sobre a minha caderneta escolar que testemunhava bons resultados académicos, a desconfiança sobre os meus princípios e valores, a falta de solidariedade entre colegas de escola, e a ausência de camaradagem extra escola, premiaram-me em diversos momentos ao longo de 74/75, nas terras “do choupal até à lapa”.
            A ruptura violenta e traumática nos meus afectos, converteu-me em jovem adulta silenciosa, precoce e introvertida, com as sensibilidades adormecidas, ou talvez anestesiadas, como forma de me proteger das novas realidades. A racionalidade e as emoções, combateram-se num duelo entre uma aprendizagem ideológica e as orientações do politicamente correcto, potencializada através da pintura realizada em horas de ócio no Museu Machado de Castro, ao longo de alguns meses. 
            Alguns amigos foram reencontrados quase 30 anos depois, outros permanecerão sempre no fio da navalha, entre o estar ou não estar vivos.          Quem me desenhou o destino era graficamente inábil como tenho confirmado ao longo da vida.
            Costumo dizer que a minha vida afectiva é um puzzle incompleto, onde faltam algumas peças. Das peças recuperadas, nem todas me trouxeram alegria, pois os anos passaram, e as peças tornaram-se menos luminosas, com contornos desligados da minha história e por vezes contrários às minhas convicções.
            Os anos passaram, não voltei mais.
            Passei a ser assumidamente uma sem terra, ou contrariando e ampliando até ao absurdo, também poderei dizer que passei a ser uma cidadã do mundo, o que em termos práticos dá no mesmo. A lei diz que tenho nacionalidade portuguesa, o meu BI também, e eu continuo a sentir-me sem raízes nos vários locais onde já vivi, neste país. Vivo de sensações armazenadas, entre sombras de jacarandás e aromas de acácias rubras, desconfiguradas em terra fria de bravos navegadores da cauda da europa e uma vontade férrea de inovar com vistas para o futuro.
            Sou portuguesa sem ter nascido aqui e não sou angolana porque não vivo lá. Afinal sou de onde? Um paradoxo desta coisa de se ser eternamente de algum lugar, sem efectivamente o ser, mas que nos preenche os sonhos de todas as noites - a crise de identidade que muitos angolanos sentem e vivem, provavelmente entenderá o verdadeiro e profundo significado destas palavras rabiscadas a partir do 25 de abril de 74.
Afinal onde é o meu lugar? 
In” Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”
Anabela Quelhas (aprendente e anotadora de espaços)

(sem acordo ortográfico)

19 março, 2014

Nunca me imaginei sem ele

Nunca me imaginei sem ele*
Nunca me imaginei sem ele.
Foi personagem essencial de muitas fotografias minhas, as primeiras que me tiraram quando decidi nascer, que ainda conservo num velho álbum de folhas de cartolina negra. Fotografias minúsculas recortadas com perímetro ziguezagueante, coladas com cantinhos vermelhos, em que ele me pega ao colo, fazendo-me parecer mais crescida, do que efectivamente era. Com dois meses parecia que tinha quatro ou cinco. Com chupeta, sem chupeta, de repas ruivas ao vento, fazendo caretas …. Sempre a preto e branco, não para fazer estilo, mas por incapacidade da máquina fotográfica daquela época…. Sempre ao colo do sr. Quelhas , o meu querido pai.
Gostava da voz dele, apreciava a sua agilidade, era um homem bonito e culto, era um lutador, era sensível, era teimoso e resistente,  a fragilidade era a sua força para criar soluções para ultrapassar barreiras. Chorava quando ria, exactamente como eu. Usava mais os óculos na cabeça do que no nariz, exactamente como eu faço. Não gostava de compromissos assumidos a longo prazo, porque mudava de ideias…gostava de decidir na hora, olhem eu!
A genética não falha nem mente, para o bem e para o mal.
Acho que foi o melhor pai do mundo, mas provavelmente teria os defeitos que todos têm. Os meus olhos já mais maduros de filha caçula, protegida e mimada, continuam a vê-lo como o melhor.
Quando estava contente trabalhava assobiando. Assobiava muitas vezes a banda sonora do filme ”A ponte do rio kwai”. E cantava bem, muito bem, como tenor.
Sempre o respeitei e sempre o admirei. Pus em causa muitas certezas que ele tinha, mas foi a minha maior referência, quando era criança, quando cresci, quando já pensava que era alguém sem o ser, e depois de ele faltar.
Raramente me deu brinquedos, mas deu-me 2 dicionários Lello Universal quase tão pesados como eu (na época), cujas páginas separadoras coloridas, coloriram muitas horas da minha infância - os serões monótonos do inverno. as horas desocupadas depois da escola, os fins de semana vazios de obrigações…
Deu-me uma bússula, uma clarineta Honner e um catálogo de cores das tintas Cin….
Não riam, pois eu gostei!
Não me contou histórias de princesas e bruxas más…
Contou-me histórias sobre Humberto Delegado, contou-me histórias de mineiros e de explorações de volframite, contou-me histórias sobre as constelações, contou-me histórias sobre Hitler e a resistência francesa, contou-me histórias sobre escravos e sobre heróis como Galileu e Nuno Álvares Pereira, contou-me histórias de viagens… histórias vividas e recontadas na 1ª pessoa.
Também gostava de rir, apresentou-me Cantinflas, Charlot, Sordi, Fernandel e Louis de Funés.
Foi ele que me levou a primeira vez, a um observatório do espaço, a um zoológico, a um porto de mar, a um autódromo, a um teatro, a uma catedral, a uma mina de água, a um museu, a uma fábrica, a uma fortaleza, a um pântano com jacarés…
Não riam, porque eu adorei! Aprendi até a subir a um edifício pelo lado de fora, com andaimes obviamente.
Mostrou-me casas, muitas casas…
Leu-me jornais, a tira do Ruca, partes dos Lusíadas e leu-me Saramago. Lia-me sempre algo do que estivesse a ler. Lia, contava e recontava.
Sempre que eu me sentia entediada com a brincadeira das bonecas e das casinhas ensinava-me a fazer muita coisa, outras coisas, coisas que não se ensinam às crianças por mero preconceito idiota.
Foi ele que me ensinou a articular conhecimento, ensinou-me a fazer paredes assentando tijolos, ensinou-me a fazer vigotas de pré-esforçado, ensinou-me a trocar uma lâmpada, ensinou-me a esticar aço e a fazer grampos, ensinou-me a juntar cimento com areia, ensinou-me a olhar o granito, ensinou-me a fazer escadas, ensinou-me a conduzir, ensinou-me os lagos e as montanhas, ensinou-me a ganhar e a perder, ensinou-me a ser tolerante, ensinou-me a raiz quadrada, ensinou-me a gostar de amarelo, ensinou-me a apanhar girinos nas poças de água, ensinou-me a traçar circunferências em jardins e a fazer tiro ao alvo, ensinou-me a não roubar ninhos, ensinou-me a amar a minha avó Felisbela e a ouvi-la, ensinou-me a gostar de mangas, ensinou-me a andar na rua, ensinou-me a admirar um camaleão, ensinou-me a construir um baloiço, ensinou-me a apanhar cogumelos, ensinou-me a compreender a trovoada, ensinou-me a dar nós, ensinou-me os cuidados a ter com a electricidade, ensinou-me o nome das ferramentas (alguns já esqueci), ensinou-me a respeitar os mais velhos, ensinou-me a ter cuidados básicos de saúde, ensinou-me a respeitar o mar, ensinou-me a educar uma vertigem de estimação, ensinou-me a gostar de teatro, ensinou-me a importância das minhas raízes e da família, ensinou-me a ter consciência social, ensinou-me o que era diplomacia, ensinou-me a ser inquieta e a não saber esperar, ensinou-me a justiça, ensinou-me a autonomia, ensinou-me quem era David Mourão Ferreira e quem era Einstein, ensinou-me a ceder e a resistir, ensinou-me a distinguir o bem do mal, ensinou-me o valor real das coisas,… ensinou-me a pensar diferente, …
                                                     ….ensinou-me a liberdade.

“Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”
Anabela Quelhas (arquitecta) aprendente e anotadora de espaços.
*Homenagem a todos os pais do mundo que amam os seus filhos.
(Sem acordo ortográfico)


14 fevereiro, 2014

Cupido

O Cupido é um deus grego demasiado descuidado, insolente,... preguiçoso, trapalhão... o Júpiter pai dos deuses é que tinha razão em querer elimina-lo à nascença, pois como deus maior sabia bem a complicação e a incompetência deste ser com asas, mas sem bico, com crise de identidade, mamífero e ave, dois em um. Um deus que é deus, não dorme, descansa, medita, reflecte... sempre com um olho no burro e outro no "cigano", pois desatenções podem ser fatais.

O Cupido em vez de estar atento 24h por dia, não, entretém-se a tirar setinhas sem pontaria nenhuma e depois dá mau resultado. ... sei lá se padece de estrabismo?! Cupido é o responsável por tanta ralação e relação amorosa falhada e por tanta gente sofrer de solidão.

Ah deus vagabundo e fatela!

Quero lá saber do ar fofinho, angelical de anjo papudo que transporta... é um verdadeiro incompetente.

Cria paixões impossíveis, daquelas que todos sabem que não darão certo, e só mesmo os envolvidos acreditam que sim. Mas o tempo é fatal, passados dois anos, cumprindo-se o tempo biológico da paixão, esta faz as malas e abala, restando dois ilustres desconhecidos que raramente aceitam o erro, desfazendo-o.

Cria paixões unívocas: só atira uma seta, em vez de duas, e assim só um é que fica apaixonado, do género um ama e outro deixa-se amar. Este deve ser o maior grupo de todos. Este grupo é daqueles que parecem felizes a vida toda, mas na verdade não se passa nada, fazem teatro o tempo todo.

O grupo menor, bem menor é aquele que é constituído pelos felizardos, sortudos que ganharam a "lotaria": O Cupido acertou em cheio após período de investigação apurada.! Esses vestem-se de amor egoísta. Parafraseando o que diz uma amiga: Querem o mundo para eles e um corno para os outros.

Por fim estão os solitários, que podem ser os esquecidos do Cupido ou então integram um subgrupo, o da reciclagem amorosa

Os primeiros já esperaram tanto que a solidão passa a ser a companheira ideal, ou então já viram tanta burrice junta que quando vislumbram o Cupido ao longe, fogem e desaparecem da circulação. Não conhecem o Cupido, não querem conhecer o Cupido e tem raiva de quem o conhece.

Os segundos são aqueles que assumem a teoria dos 3 Rs, REDUZIR, REUTILIZAR E RECICLAR e esperam e desesperam pela atenção do dito cujo infatiloide, que está a olhar para os abismos e quer lá saber da quercus e do greenpeace.

Sinceramente não admiro o Cupido, não sei o que a Psiquê viu nele. Será que viu ou deixou-se apenas amar.

E os locais que o Cupido escolhe para manobrar as setas?

è do pior...

Bem, quando os casais se apaixonam no museu da presidência da republica, na igreja do Troufa Real em Lisboa, nas áreas vip de certas discotecas, no Portugal dos Pequeninos, durante as malfadas praxes, no panteão nacional ou até na loja Chao Lin,... eu acho que o Cupido está gravemente embriagado ou anda a fumar coisas estapafurdias.

in "Ensaios de escrita um projecto sempre adiado" Anabela Quelhas

07 dezembro, 2013

...existir, não existindo. (1923-1996)



Passei a mão no teu rosto e senti-o frio e marmóreo numa manhã de dezembro. Gelei a mão no teu rosto imóvel, confirmando a falta de esperança há muito congelada, num diagnóstico fatal. Foi numa madrugada gélida, atravessei 2 ou 3 ruas a correr após um telefonema previsível.
Chorei convulsivamente, num desenlace aguardado há muito, cavalgado em progressiva demência incontrolada, em que ninguém entendia nada de nada, onde a medicina mostrou a sua magistral incapacidade para resolver o teu problema. Mais uma vez senti, que nós, seres viventes do seculo XXI estamos muitas vezes na idade da pedra e não descolamos. O teu rosto parecia uma escultura de alabastro, macio e frio… frio de morte.
Despedi-me de ti ao longo de quase 2 anos, ias deixando de ser tu, conforme as horas passavam. Cada dia estavas mais diferente e mais ausente de nós, apesar do nosso esforço para que tudo se tornasse real, fácil e confortável para ti… mas o teu olhar saía da tua zona de conforto e viajava para o vazio, onde não sei o que existe, nem onde se localiza. Foi uma despedida dolorosa e progressiva até não me identificar mais com o corpo de quem tratava, pois ele estava sem alma, inerte e amorfo.
Só fiz o teu luto décadas mais tarde… ainda o faço, cada vez que escrevo sobre ti.
Coisa estranha a alma separar-se do corpo com ele ainda vivo. Para onde ela vai? Que estranho lugar é esse para onde as almas emigram antes do tempo! Assisti a uma decomposição seguida da desconstrução de ti, hora após hora, dia após dia. Percebi os limites da resistência dos humanos, percebi o quanto somos frágeis, tomei consciência da forma como poderemos desejar a morte a quem queremos tão bem – a contradição feita “pecado” que habita sempre em mim. Nunca mais fui a mesma, perdi frescura e entusiasmo, nesta inversão de papéis, de quem trata quem. Nunca mais a nossa família voltou a ser o que era antes, não por tu faltares, mas por a despedida ser tão longa, tão penosa e desumana, tendo afectado cada elemento. Perdemos alegria, perdemos brilho e criamos uma resistência brutal às contrariedades da vida… afinal, ela é tão estranha, com memórias a várias velocidades!  Os papéis de cada uma de nós definidos ao longo dos anos, inverteram-se completamente, deixaste de nos dar “colo” e passaste tu a precisar dele, num retrocesso diário para um espaço indefinido e tenebroso. A certeza que cada dia seria pior que o anterior, nunca nos abandonou e preenchia cada vez mais a esperança que nunca conseguimos possuir. Questionava-me diariamente sobre o que seria ainda pior. Nada mais voltou a ser igual…. deixou de haver aquela cumplicidade serena de silêncios, só possível nas mães.
Como lidar com tudo com dignidade? Como lidar com as situações mais penosas com sentido de humor e entusiasmo para que não te apercebesses que estavas mal e cada vez pior e pior. As fases sucederam-se, a perda de voz, a perda de orientação, a perda de movimentos, a perda da deglutição, a perda da visão, a perda do conhecimento… a fase do colo, a fase da cadeira de rodas, a fase da cadeira dentro da banheira, a fase dos resguardos, a fase das fraldas, a fase da rigidez, a fase das sondas e das seringas, a fase das escaras, a tua pele abrindo e mostrando o interior de uma anatomia moribunda… a fase da vigilância permanente. O pai não resistiu pura e simplesmente e sucumbiu de exaustão e desgosto, ainda o problema se iniciava. Todos ficamos marcados por esta violência que se denomina alzeimer, sentença que te deram quase 6 anos antes, perante a nossa surpresa e desconhecimento total desta sentença mortal. Ficou mágoa, revolta, desapontamento e frustração, de uma batalha perdida de ti, mulher bonita, afável, carinhosa e de gargalhada livre. Ficou uma textura baça e sem brilho nesta recordação dolorosa do não existir, existindo.
Bj      

In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”, Anabela Quelhas