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08 janeiro, 2008

Ainda sobre Vieira da Silva



Vieira da Silva casou com Arpad Szenes, pintor hungaro que conheceu em Paris, tendo portanto perdido a nacionalidade portuguesa.
Arpad além de húngaro era também judeu, o que provocou a sua fuga à perseguição nazi, para Portugal, durante a segunda guerra mundial. Decidiram viver em Portugal em 1939, fugindo aos horrores da ocupação nazi da França, e Vieira da Silva tentou recuperar a nacionalidade portuguesa.
Salazar recusou sucessivamente os vários pedidos, entendendo ser demasiado perigosa a sua ligação marital com Arpad, julgando-o comunista. Ficaram em Portugal por pouco tempo. Não deixou de participar num concurso de montras, realizado no âmbito da Exposição do Mundo Português, que também lhe encomendou um quadro, mas cuja encomenda lhe foi retirada em consonância com a regeição de Salazar.
As notícias acerca da guerra agravaram-se cada vez mais e em Junho de 1940, Vieira e Arpad embarcaram para o Brasil.
Apesar de compreender a língua deste país e de ter feito amizades graças a cartas de recomendação de amigos portugueses, ela nunca perdeu o sentimento de desenraizamento que desde o início a assaltara, no exílio. Por outro lado a sua pintura não foi valorizada no Brasil, pois o estilo figurativo dominava nessa época a arte brasieleira.

Voltou a Paris em 1947. Em 1956, Vieira e Arpad naturalizaram-se franceses.

03 janeiro, 2008

Vieira da Silva




As primeiras obras que conheci de Vieira da Silva, foi na década de 70. Chegou-me a informação um pouco confusa e filtrada pela censura. Já nem sabia muito bem, se era um homem se era uma mulher, se era portuguesa, se era brasileira ou francesa… sei que rabiscava como os arquitectos. Foi isso que retive.
Depois viram os cartazes sobre Abril.
Na década de 80 vi uma grande exposição na Fundação Gulbenkian, acho que, já no museu de arte moderna, sobre a obra dela, onde figuravam tapeçarias de gigantescas dimensões, hoje algures lá pela Holanda, a decorar o palecete dum ricalhaço ou servindo de cenário no foyer de um banco, e que me deixaram deslumbrada, com curiosidade de estudar à exaustão a obra desta senhora. Até comecei a utilizá-la como referência no meu processo imaginativo, quando iniciava uma modesta pintura.
Não cheguei a conhece-la pessoalmente.
Pareceu-me sempre, ser uma pessoa simples que rabiscava fabulosamente bem.
Identificam a sua obra como sendo lírico-abstracta, que segundo li, causava-lhe um certo incómodo, tal chavão.
Imagino-a como sendo uma mulher simples, que teria sempre uma caneta na mão para rabiscar…uma bic talvez, quem sabe, ou de tinta permanente? e tal como todos nós fazemos, rabiscamos qualquer coisa de forma pouco consciente, quando estamos entretidos a ouvir alguém, ou esperamos alguém na mesa do café. Desenhava os tabuleiros de xadrês, as cidades, as bibliotecas, os ateliers onde trabalhava e imagino que a maioria dos seus desenhos, começariam com aqueles traços que procuram o ponto de fuga, numa perspectiva central, que muita gente faz, e que depois lhe passa uma malha geométrica por cima e a seguir amassa o papel e deita fora. A única diferença será que, os rabiscos de Vieira da Silva não iriam para o lixo. Ela repetia essa malha desenfreadamente ate atingir um rendilhado pictórico, ou um labirinto cromático. E aí é que começa a parte difícil, confusa e complicada. Experimentem fazê-lo! A representação do espaço consta da expressão de uma outra forma de ver, formada pela desfragmentação, pela desconstrução do real, utilizando imensos traços, rabiscos, texturas, superfícies, num emaranhado de formas e, necessariamente de raciocínios labirínticos. Acho que nada surge acaso. Mas tudo surge dum representação rigorosa inicial.
Ninguém consegue expressar tão bem o emaranhado das malhas urbanas como esta pintora - as linhas a negro reforçam a intencionalidade de algo, num meio concentrado e saturado de grafismos, que leva algumas pessoas a deduzir erradamente que ela terá tido formação em arquitectura. Mas de facto, ela tangencia imensas vezes o esquiço arquitectónico, que procura projectar espaços urbanos, que procura encontrar soluções para espaços vazios ou de circulação, mas desmultiplica-o simultaneamente em espaços com intenção de tridimensionalidade, e ainda por cima belíssimos.
Tenho sempre dificuldade em escolher uma obra que aprecie mais. Por isso consultem esta página que construí
http://culturalmente.mja.googlepages.com/home

Só umas notas finais:
- o ano de 2008 é o ano do seu centenário e apesar de ser uma figura impar na pintura contemporânea, não há uma página portuguesa que ilustre convenientemente a sua obra. Tive que recorrer a um site castelhano para fazer a minha página. Enfin!!!
- o facto da maior parte da sua obra estar em França fica-se a dever à “visão”do ditador Salazar. Mas Salazares há muitos!

26 outubro, 2007

Guernica (3,50X7,82m)


Guernica, antiga capital do País Basco, foi bombardeada a 26 de Abril de 1937, pela aviação alemã, de onde resultou um verdadeiro massacre da população civil espanhola.

Como ficar indiferente a isto?
Picasso não ficou indiferente.

Picasso não estava lá, mas percebeu através das fotos que lhe enviaram, o horror da guerra vivido por homens, mulheres e crianças.
Teve necessidade imediata em traduzir nos seus desenhos, esse sofrimento por ele sensibilizado.

Resultou Guernica.
Como sempre foi pratica comum de Picasso, realizou dezenas de estudos e de esboços, antes da tela final.
Cada figura teve um percurso reflexivo e desenhado, próprio.
Guernica não é a soma de vários desenhos.
Guernica é um todo experimentado e vivênciado em cada detalhe.
Toda a composição é dominada pela luz de um olho-lâmpada, localizado superiormente, o piscar do momento de terror, o alarme que soa num dado momento e que funciona como charneira para o momento seguinte, onde tudo é negativamente diferente. Este será o pormenor mais marcante e que afinal é formalmente ausente de qualquer expressão de terror.
No centro um cavalo em pânico, descontroladamente aterrorizado, simbolizando a força da destruição. Junto a este, uma mão segura uma lamparina a óleo, acessório vulgar nas casas rurais, que se opõe em contrasrte com o olho- lâmpada.

À esquerda, uma cabeça de touro.
Petrificado? Imóvel? Estarrecido perante o desespero de uma mãe com o filho morto no colo? A piéta picassiana. Um ser humano esquartejado compõe a parte infeiror da tela, numa morte recente de um lutador que empunha uma espada que subtilmente se transforma numa flor, tal qual a alma se desprende veladamente do corpo.

À direita, uma mulher, com pés enormes e com seios expostos, volta-se para a luz, implorando… aqui o olho-lâmpada já simboliza uma entidade superior, que assiste, mas não altera o estado de agonia e de destruição.

Outra mulher de braços levantados… para quem? O apelo desesperado e sem esperança, de quem já perdeu tudo, enquadrada numa casa em chamas.

O tratamento dado às figuras, são resultado do processo cubista de representação. A ausência de cor, acentua ainda mais a mensagem.
O insuportável, a dor extrema, o horror, a violência, converteram esta obra em intemporal, ou seja, adequada a cada época que vive situações idênticas. A guerra o sofrimento por perda violenta, não tem moda, nem época…. É transversal ao tempo.


Sobre o enorme painel, Guernica, Picasso foi um dia questionado por um general, que lhe perguntou: "foi o senhor que fez isso?" A sua resposta foi afiada: "Não! Foi o senhor que fez isso".

(Esta obra só regressou a Espanha em 1981, após um exílio de mais de 40 anos em Nova Iorque – Picasso tinha decidido que ela só regressasse no fim do fascismo.)

03 outubro, 2007

23 junho, 2007

O meu encontro com Mona Lisa

Prometi que voltava à Mona Lisa....
Mona Lisa é famosa em todo o mundo, pela sua expressão introspectiva, pelo seu enigmático sorriso e por ter sido pintada pelo mais estimado mestre renascentista, Leonardo da Vinci.
Terá sido a esposa de Francesco del Giacomo ou terá sido Isabel de Aragão?

A identidade do modelo permanece desconhecida, e ainda se questiona se o modelo terá sido masculino ou feminino (e esta?).

Lillian Schwartz, cientista dos Laboratórios Bell, sugere que a Mona Lisa é na verdade um auto-retrato de Leonardo, e eu acrescentaria, travestido. Comparando um auto retrato de Leonardo com a mulher do quadro, verifica-se que as características dos rostos se conjugam na perfeição.

Um computador da Universidade de Amsterdam, programado, com a colaboração de uma Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, para - reconhecimento de emoções - analisou o famoso quadro de Leonardo para tentar revelar o famoso sorriso da mulher retratada, que constitui um dos maiores mistérios da arte mundial. Desenvolveram um algoritmo que tenta determinar os sentimentos expressos por uma pessoa através da análise de traços faciais, como a curvatura dos lábios ou as rugas dos olhos.

A conclusão foi a seguinte:La Gioconda era 83% feliz, 9% enjoada, 6% atemorizada e 2% incomodada. (ultimo nº e da revista "New Scientist").

Há especulações sobre uma possivel gravidez de Mona Lisa, baseadas na postura das suas mãos inchadas sobre o ventre, fazendo-se a analogia com o gestual de protecção ao ventre das gestantes.

Mais importante do que a figura em si, é definitivamente, a técnica de pintura a óleo, criada por Leonardo, que lhe permitiu criar sombreados subtis, através do célebre sfumato , e uma perspectiva atmosférica impossiveis de produzir com a têmpera de ovo, então usada.

Leonardo demorou vários anos a pintar sua Lisa, e levou-a de Itália para França.

Mona Lisa foi o fetiche de Napoleão e este não a dispensava dos seus aposentos intimos; foi roubada uma vez por um italiano, inconformado por esta obra não estar no seu pais, foi agredida, e já viajou pelos Estados Unidos, Japão e União Soviética - currículo interessante!

Mantém-se no Museu do Louvre em Paris.

Um amigo meu, duplo especialista em olhares de Mona Lisa (olá Xico) defende a teoria, que o olhar da referida, nos acompanha, consoante nos deslocamos à sua frente, o que confirma a magia e simbolismo de questa donna.

Confesso que não a aprecio, e tenho até, um certo ódiozinho de estimação por ela, dado que o seu nome insiste em me acompanhar pela vida fora! - vá-se lá saber porquê!

Fui ao Louvre visitá-la!

Coitada!
Vi uma Mona Lisa de pequenas dimensões (77X53), em que a sua pequenês se assentua ainda mais, junto de "As bodas de Canaa" ou de "Coroação de Napoleão", obras verdadeiramente gigantescas.

Tem um sorriso completamente depré, dado que se encontra completamente encaixotada em vidros anti bala e anti motim, e iluminada por luz fria para evitar as rugas no seu rosto seiscentista.

Passeei-me à frente dela, para confirmar a tal teoria do movimento dos olhos.



Aproximei-me, afastei-me, sustive a respiração, respirei fundo, simulei um virar de costas, vigiei-a discretamente enquanto outros visitantes ensaiavam também os seus rituais, provoquei-a, pisquei-lhe o olho.... nada!

Acabei por retribuir-lhe o sorriso! ... muda e queda pour toujours !!!
Aquela ausência das sobrancelhas e pestanas, torna-a ainda mais estranha e patética.

500 anos a sorrir, sem perder a compostura, como é possivel?

O que fará durante a noite?

Será que adormece com aquele mesmo sorriso, ou boceja de enfado e cansaço?

Lembrei-me tambem da interpretação de Sigmund Freud, que considerou que aquele sorriso revela uma atracção erótica entre Leonardo e a sua mãe, como não podia deixar de ser!

Se fosse pintada hoje, Leonardo retrataria certamente a mulher conformada, que deu prioridade à familia em vez de se realizar profissionalmente e que ainda por cima assume que adora pilotar um fogão.

Aquela que sufocou os seus sonhos para não atrapalhar ou ofuscar o papel do marido, tendo-se colocado sempre no final da sua própria lista de prioridades.

Os admiradores são imensos, de todas as nacionalidades e raças, fazem até, fila, e olham-na embevecidos, agradecidos e realizados por aquele momento, estar de facto a acontecer nas suas vidas.

Porque a amam tanto?

Obrigatóriamente dividi a minha atenção entre a obra de arte e os observadores, e cheguei a um ponto, em que os últimos levavam vantagem.

Registei os seus olhares, as reacções e comentários que faziam para os acompanhantes - sorriso lascivo, inocente, triste, alegre, convidativo, enigmático... e reparei que aquela sala nunca se esvaziou - eu diria que é uma sala de culto.

A grande maioria olhava-a com grande ternura, é um facto!

A Mona Lisa fundou o modelo adequado ao retrato. Da cinta para cima, mãos cruzadas sobre o regaço, postura a 30 graus, cenário ao fundo com maior ou menor qualidade, rosto e colo com boa luminusidade... e o tal sorriso, que ninguém sabe classificar.

Sorri de quem, do quê ou para onde?

O modelo de retrato mencionado será utilizado, posteriormente, por muitos outros pintores, fotógrafos e até na televisão.

Quando se vai ao fotógrafo tirar as fotos tipo "passe", o que acontece, meus amigos?

Lá vem a posição Mona Lisa!

Nunca pensaram nisso?

Nunca se acharam completamente ridículos, e furiosos quando posteriormente, verificam que o sorriso ficou a condizer?

Alguns menos simpáticos já a ridicularizaram, como Marcel Duchamp (Movimento Dada) que lhe pintou pêra e bigode, entrando definitivamente no mundo da clonagem.

Dali pintou um auto retrato com a "colagem" da dita e foi pela mão de Andy Warhol que entrou na Pop Art.

E quem é que já não cedeu à tentação de se auto retratar pelas agora, tão acessiveis, possibilidades de clonagem informática, ou então reforçar o seu sorriso, com um rosto de gata, ou colocando-lhe rolos na cabeça?

Há ainda a Mona Lisa interactiva, basta uma busca na net, que facilmente cada um adapta a sua expressão a seu gosto.

Como estaria ela da cinta para baixo?Já muito humor se fez a partir desta interrogação e já muito cartoon se criou!

Afinal será esta a mulher ideal?

Depois de me encontar com Mona Lisa, um verdadeiro ícone da pintura, e como deve acontecer quando se encontra alguém, pela primeira vez, realmente importante e com significado, realiza-se uma avaliação mais fundamentada e reformula-se a opinião.

Eu que sempre a considerei 100% tótó, mesmo sem qualquer base científica, revi a minha avaliação:
80% tótó10% desesperada5% de esgar claustrofóbico3% conformada 2% decepcionada(que me desculpem os milhares de admiradores)


Publicado em www.sanzalangola.com em 21/02/2006

15 junho, 2007

A mulher através da arte




(não resisti em trazer este trabalho ao estir@dor, obrigado António)

26 maio, 2007

Summer of Love

Chegou a noite, e vi que me tinha esquecido deste estirador.
Aí vai...


Neste verão, nos States vai ser possível revisitar o boom da arte dos anos 60, por alguns denominada por psicadélica, marcada pela contestação e irreverência da geração hipppie. Uma fabulosa exposição "Verão do Amor" que estará patente desde ontem, até Setembro, no museu Whitney, em Nova Iorque. Para além de pinturas, esculturas e fotografias, estarão expostos outros materiais que fizeram furor nessa época: capas de albuns, posters, e o Porsche de .... adivinhem, Janis Joplin.



10 maio, 2007

Mais uma espiral


Mais uma espiral!!!! Estão a exercitar para depois irmos aos mais complexos? Digam lá se isto é ou não uma pequena maravilha?

09 maio, 2007

Estereograma - como ver

Não sei se resultará a 100% através da net com imagens copiadas em scanner… no meu pc dá para ver!
Não me vou esticar em explicações dos porquês, e do como foi e assim e assado e também… isso fica para os médicos e os engenheiros com muitos diplomas. Eheheheheh!

Objectivo: através de um registo ou dois, visualizar a 3ª dimensão. Afastar de vez o nosso ar apalermado quando não vemos nada. O resultado final pode já adivinhar-se mediante as imagens observadas de forma descuidada, ou não; as imagens tridimensionais podem estar escondidas num padrão de pontos inteligível.
Preparativos:
Local: calmo e bem iluminado
Colocar a figura ao nível dos olhos, iluminada uniformemente.
Manter a figura ligeiramente mais afastada da distância normal de leitura.
Quem usa óculos, experimentar também ver sem eles.
Aprender a ver:
As imagens que publicarei, tem dois pontos na parte superior que ajudarão a focar a imagem para se poder ver a tridimensionalidade.



Assim, basta focar os pontos, exercitar o olhar de forma que se veja três pontos com maior relevância do ponto central, relaxar o olhar, sem perder essa forma de olhar e deslocar levemente o olhar para a imagem.
A forma de olhar, consta, o que vulgarmente se denomina por cruzar o olhar, forma-lo convergente de maneira a duplicar a imagem. Aquilo que fazíamos em pequenos e os nossos pais diziam que fazia mal à vista.



(coração)

Pode ajudar afastar ou aproximar a imagem. Experimentem.

Não fiquem na dúvida.... parece que vejo, mas não vejo muito!!!!!!... se não vêem exercitem de novo, pois quando posicionam bem o olhar não resta nenhuma dúvida.



Escolhi estes exemplos de minúsculos pontos, pois é mais facil para começar.

(espiral)

08 maio, 2007

Estereogramas

Sim, vou dar umas dicas para vocês verem em estereoscopia! Há uns tempos atrás escrevi um texto também sobre este tema, que navega algures pela net, tentei reencontrá-lo, aí vai:




ESTEREOGRAMAS
"Um estereograma é uma técnica de ilusão de óptica, onde a partir de duas imagens bidimensionais complementares, é possível visualizar uma imagem tridimensional utilizando técnicas especiais para isso." Wikipédia
Aqui no nosso rectângulo vermelho e verde, há uns anitos atrás, um jornal semanal, dava como brinde aos seus leitores, pequenas imagens de estereogramas. Este gesto simpático, gerou muita desarmonia familiar, e levou muitos tugas, a estádios de completa frustração, por verificar que não possuíam a tal capacidade de ver a tridimensionalidade das referidas imagens.
As famílias desocupadas, ao fins-de-semana, dividiam os seus elementos, entre os que viam e os "outros".
Ficando o grupo dos que viam, com a sensação de serem iluminados, pertencendo assim, aos eleitos do virtual, e os outros com cara de palhaços, completamente desconcertados pelo esforço inglório de fixar os olhitos e nada lhes saltar do papel.
Eu, pertenci durante algum tempo a um subgrupo dos "outros", que pensava: "estão a mangar comigo!"..., "claro que a terceira dimensão é dada pela posição e cor dos objectos, colocados no suporte, tal e qual como se faz na pintura, explorando a noção de perspectiva".
Um dia, perdida por uma livraria, naquele exercício rotineiro, abre livro, arruma livro, verifico que tenho nas minha mãos um pequeno livro de estereogramas, com a chave de todo o paradoxo vivido pelos iluminados e pelos "outros".
Não o larguei mais!
Esse pequeno livro abriu uma nova janela no meu olhar!
Para já, o prefácio inicia-se com uma frase brilhante, que passo a transcrever:"O cérebro humano é a máquina de realidade virtual mais incrível jamais descoberta. As tentativas feitas ao longo da história para utilizar meios tecnológicos na criação de ilusões tridimensionais têm tentado reproduzir artificialmente, o que o sistema perceptivo humano faz naturalmente.
"Finalmente, alguém explica que, os iluminados, não são afinal iluminados, coisa nenhuma, e os outros, são de facto, muito mais que "tadinhos"!
Afinal todos os seres humanos com dois olhos a funcionar, conseguem ver em três dimensões, dado que cada um deles observa a realidade de forma independente, e as duas imagens se fundem posteriormente no cérebro - princípio da estereoscopia.
Para este fenómeno ter sucesso, ou seja, poder ser visualizada a terceira dimensão, sem a ajuda de qualquer dispositivo óptico, basta relaxar os músculos ópticos e deslocar o ponto de focagem do olhar. Às vezes é necessário alguma prática, o que este livrinho pode dar uma ajuda, já que ensina de forma muito concreta a posicionar o olhar sobre o suporte.
Sobre a história da estereoscopia, pode-se referir que esta, antecede a própria fotografia, referindo-se o ano de 1838, como o ano da invenção do par e do visor estereoscópico. Meus amigos isto já se iniciou há dois séculos atrás, sem ajuda dos PCs!
Os interessados poderão realizar uma busca na net, e encontrarão imensos exemplos que vos irão deliciar.
O livro referido é:"Estereograma" Howard Rheingold, Gradiva Publicações, Lda - 1994



Os estereogramas confirmam de forma inequívoca, que ao olharmos para o mundo à nossa volta, há muitas formas de o vermos e de nos relacionarmos com ele, depende apenas da forma como o aprendemos a ver. Nem tudo o que parece é, e nem tudo se esgota naquilo que parece ser.
As nossas verdades, afinal podem não o ser.
Anabela Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 20/04/2006




Amanhã darei as dicas


(nesta imagem pode ver-se um coração escavado no padrão de fundo)

17 abril, 2007

Figueras (conclusão)

Pouco tempo nos detivemos nas pinturas estereoscópicas, para a mim a parte mais interessante da obra genial de Dali, dado não haver condições para o fazer: é necessário tempo e calma para efectuar o exercício do olhar.
Promessas feitas, de mais tarde, orientar esse exercício com material que fui arquivando ao longo dos anos.

Diverti-me com as posturas adoptadas por cada visitante, tentando visualizar essas pinturas… o próprio Dali, se socorria de um espelho prismático, para aqueles que não conseguem colocar o olhar para trás da figura observada. Dali aborrecia-se ficando triste e decepcionado consigo mesmo, quando os amigos não conseguiam descortinar aquilo que ele tinha intenção de representar.
Penso que a maioria dos visitantes avaliou aquelas pinturas como mais um trabalho escultórico, deste pintor experimental, sem visualizar exactamente o que Dali pretendia, a 3ª dimensão.

Como sempre, dispus de algum tempo para observar os visitantes - mania minha, de ficar a apreciar a interacção que se produz entre a obra de arte e os receptores, ler o olhar que se defronta com obras clássicas utilizadas de forma obsessiva no surrealismo, imaginar o que cada um imagina, sentir as surpresa incontidas perante o bizarro e a imprevisibilidade.

Saímos, contornamos o resto do edifício, pois eu procurava as minhas lembranças de menina.


Tomei conhecimento da existência de Dali, era ainda menina de duas tranças, através de um documentário que passou no cinema Império, em Luanda, mesmo no final da década de 60.
Tratava-se de um pequeno registo em cinema, sobre um evento qualquer, que Dali promovia em relação à sua própria imagem, expondo a sua genialidade de forma despudorada, excêntrica, provocadora e escandalosa, no mar mediterrâneo, provavelmente na sua casa em Portlligat, na Costa Brava.
Nem sei bem, como esse filme passou através da censura do regime fascista!!!
Nunca encontrei ninguém que ainda se lembre desse registo.
Não me lembro de grandes pormenores… mas sei que nesse momento, virei voyer, no sentido estético do termo.

O homem dos bigodes extensos, todo vestido de branco, que nascia na tela a partir de um grande ovo, impressionou-me de forma invulgar. Ficaram-me gravadas na memória a forma como ele pintava e bem, no meu entender infantil, espaços reais, mas ao mesmo tempo… eu ainda não sabia o que era surrealismo, o que era o metafísico, mas as imagens passaram a habitar a minha mente em crescimento… as muletas, os relógios, as deformações, as gavetas, as bexigas, moscas, os corpos em suspensão, girafas em chamas, os ovos, os ângulos de visão em contrapicado… tudo isto se apresentou para mim, como uma porta lúdica, aberta à descoberta, que tento utiliza-la ao longo dos anos.
A pintura “O sono” viria a reencontra-la passados dois ou 3 anos, como capa de um álbum de musica.

Uma parte do edifício tem a platibanda com ovos gigantes fazendo lembrar ameias de um castelo. São a imagem de marca do museu Dali.
Os ovos, são simbolos da fertilidade, talvez associados a fertilidade/genialidade do percurso de Dali. Há ali qualquer coisa que se aproxima ao kitsch, de forma intencional.

Lá fiz eu a tal associação às minhas imagens de há décadas atrás, que habitam a minha mente em contracto permanente, procurando explicações e referências, que substancializem as formas recordadas …
Os ovos aparecem também na praça de Touros de Barcelona… Dali nem tinha grandes ligações ao mundo tauromático, pintou apenas uma tela com esse tema…. Deve haver uma explicação… talvez relacionada com as suas recordações visuais, intra-uterinas, que afirmava possuir.

Ainda não encontrei a respostas a todas as minhas interrogações de criança!


“Dali, ame-o ou deixe-o”, foi esta a frase do centenário do seu nascimento, eu continuarei a amá-lo, para o entender.

Voltarei sempre!

Diário de viagem, IV de 2007

16 abril, 2007

Figueras (cont)


Há fotos de Dali junto ao Cadillac, com a sua famosa bengala apontando para uma bailarina de Barcelona que posava em fato de banho junto à gorda “Ester”, seguindo um qualquer ritual exotérico.

Tudo dentro deste museu é um pouco anárquico. Sente-se liberdade e movimento constante, e
Dali deve estar a espreitar lá acima, com os seus bigodes cheios de laca, distraindo as moscas, imaginando outras obras, a partir da sua obra, como ele tantas vezes fazia.

Há um percurso pré-determinado apenas para os visitantes terem a certeza que irão ver todos os espaços, mas não há nenhuma sequência lógica, uma organização cronológica. Os visitantes são muitos, uns seguem o percurso referido, outros não, há um turbilhão de pessoas a entrar e sair de todas vãos que o edifício contém.

As obras expostas permanecem nos lugares que o pintor estabeleceu, as obras mais conhecidas, não estão aqui, e sim espalhados pelos museus do mundo, excepto Labirinto e Toureiro alucinógeno. As esculturas, os objectos, os esboços são o que mais me agradaram, transparecendo o espírito ensaísta que havia em Dali, a constante procura pelas leis da física e pelos estádios da mente.
Acreditaria, ele, verdadeiramente em Deus?

Oiço os meus companheiros a dizer, que é impossível reter tanta informação de uma só vez.
Sorrio. Apanharam uma congestão Daliniana!


Vimos o Túmulo de Dali. Desconhecia que também estaria dentro do museu.
(cont)

Diário de viagem, IV/2007

15 abril, 2007

Figueras



Cheguei a Figueras por volta das onze da manhã, no renfe…. A partir do Passeo de Gracea, Barcelona.
Aprovei para passar pelas brasas, à semelhança dos meus companheiros de viagem, depois de vários dias com muitos pedantes.
Já tinha feito uma visita virtual ao Teatro Museo de Dali, mas nunca me tinha perdido por aquelas paragens. Pelo caminho ia a imaginar a surpresa que os meus companheiros iriam ter, pois iam completamente desprevenidos. Só sabiam da minha insistência nesta visita, explicando-lhes apenas que era um museu invulgar, e que nada me faria desistir dessa deslocação de cento e tal km, nem frio, nem chuva...
A partir da estação, fizemos 10 minutos a pé até lá chegar.

O que são dez minutos?
Uma verdadeira ninharia para quem tem engolido quilómetros.

Aproximamo-nos através do casario, pelo lado menos exuberante do velho teatro de Figueras, onde viveu Dali, nos últimos anos da sua vida, já sem a pressão megalómana de Gala.
Na entrada, todos estranharam: poder entrar com câmara de vídeo e fotográfica, sendo permitido fotografar sem flash, e não limitarem o número de visitantes.
Nós chegamos relativamente cedo, mas o comboio trouxe muita gente. Passados uns minutos o museu estava cheio de gente e o fluxo de visitantes foi aumentando. A fila para adquirir as entradas começou a ficar cada vez mais longa.

Deparamos logo a seguir à entrada com um pátio extraordinário, onde repousa o cadicallac de Dali, com uma estátua feminina, de gigantescas formas redondas, aplicada na parte da frente do automóvel, e com um barco invertido e suspenso a diversos metros de altura, que supostamente deixa cair água – Táxi Chuvoso.

Verificaram logo ali, que não estavam no interior de um museu qualquer, onde tudo é medianamente previsível e estereotipado.
Este museu já foi denominado por, caverna de Dali Babá, pois é um espaço cheio de surpresas, tratado pelo próprio Dali, e que não se limitou a ter a função de museu, este espaço foi sítio de inúmeras experiências exuberantes, que Dali fazia questão de promover e divulgar, escandalizando um pouco a sociedade e a própria comunicação social da época.
Há fotos de Dali junto ao Cadillac, com a sua famosa bengala apontando para uma bailarina de Barcelona que posava em fato de banho junto à gorda “Ester”, seguindo um qualquer ritual exotérico.
O pátio, penso que corresponderia à sala de espectáculos do antigo teatro, Dali procedeu a algumas alterações nas zonas mais afectadas pelos bombardeamentos da guerra civil espanhola.

(cont.) Diário de Viagem, IV de 2007

24 março, 2007

Persistência da memória


As fases de sofrimento de um artista normalmente dão origem a grandes obras, a grandes escapes e concretizações de criatividade.
Dali, em ruptura com os valores do pai, inicia uma fase inigualável.

“Persistência da memória”, a pintura talvez mais conhecida de Dali, a origem da sua fortuna, foi executada, num clima de desespero, de angústia, após ter sido expulso da casa do pai. Dali escandalizava o pai e assumia atitudes de blasfémia em relação à mãe já falecida – um processo de auto-afirmação complexo, tortuoso e sofrido.

A pintura do contraste entre o "mole e o duro".

Os rochedos do cabo de Creus, fazem parte do fundo do enquadramento, o local exacto onde os Pirinéus vem morrer no mediterrâneo - local que inspirou outros artistas, Gaudi, por exemplo.
As formas, as sombras dos rochedos, metamorfoses continuadas de quem os observa, mediante o movimento de aproximação ou afastamento, interiorizadas e adaptam-se ao subconsciente do observador, que olha de novo e já imagina outras formas, outros conteúdos, outras memórias e outras realidades.
Este exercício imaginativo e criativo está presente sem dúvida em Dali e em toda a obra escultórica de Gaudi, tornando-se até lúdico, este jogo granítico/sensorial.

O mole representado pelos três relógios disformes, resultantes de uma noite de enxaqueca depois de um jantar rematado por um Camembert, inicia a reflexão contrastante entre a dureza dos rochedos e o mole, o super mole do queijo fluido.
O que representarão os relógios? Sabemos donde surgiu a inspiração, mas qual será o seu verdadeiro significado numa noite de enxaqueca?
... A tentativa ou a convicção de escapar ao controle do tempo?
... a possibilidade de o dobrar consoante o nosso desejo?
… um tempo que tanto é passado como é presente, que tanto é sonho como é realidade?
…o tempo flexível como testemunha do adormecimento do pintor?
… os vários tempos que só sobrevivem quando relacionados com alguma coisa?
O tempo é representado como entidade completamente subjectiva. Um quarto relógio fechado ao onírico, será um tempo morto em putrefacção, invadido pelas formigas, um tempo desinteressado pela dialéctica com o rochedo, com o mar e com Dali? Penso que este relógio estará relacionado com a figura paterna.

Entendo os relógios,... o mole… mas como explicar? O mole sinónimo do versátil do macio, do extravagante, do feminino.

O próprio Dali fica auto-retratado nesta pintura, como figura mole também adormecida na areia, sem boca, mas com língua que lhe sai do nariz.
O contraste entre opostos é acentuado pela relação entre o rigor e o detalhe da representação ao nível das formas, e as dimensões que não sendo reais permitem a deformação (relógios e o rosto de Dali) e ainda pelo colorido, rico e variado, mas que divide a tela em duas partes desiguais no entanto harmoniosas. Na pintura domina a horizontalidade, que se cruza com outra direcção ortogonal representada pela oliveira.

Quantos já sonharam num meio integrado no sem tempo, e que acaba por persistir apenas na nossa memória? Mas afinal porque Dali pintou os ponteiros dos relógios?

Dali achou a pintura extraordinária, mas imprópria para venda. Engano mostruoso, o quadro foi logo vendido, e passou por vários mãos até chegar ao Museum of Modern Art de NY.

12 março, 2007

O beijo, de Gustav Klimt

(republico este texto, ao receber um diaporama sobre a obra quase completa de Klimt, e que encaminharei para todos os meus amigos)
Oiço Abrunhosa, embalada na cadência das suas palavras, que emanam sedução, cumplicidades, sentires profundos, capazes de criar interligações com registos visuais... e deixo-me navegar em mares de cetim....
Viagens que se perdem no tempo,
viagens sem princípio nem fim,
beijos entregues ao vento,
e amor em mares de cetim.
Gestos que riscam o ar,
e olhares que trazem solidão,
pedras e praias e o céu a bailar,
e os corpos que fogem do chão.
...enquanto escrevo, sobre o "O Beijo" de Gustav Klimt (1862 - 1918 pintor simbolista austríaco), grande tela pintada em 1908, uma das obras mais sensuais da história da pintura. Representa o símbolo de união.
Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.
O erotismo do casal de apaixonados é transmitido através de linhas sensuais que emergem no eixo de simetria com a figura feminina.
A exploração dos desenhos decorativos das roupagens de ambos, jogando com os violentos acordes cromáticos, fazendo o contraste entre quadriláteros e circulos, num simbolismo desmedido dum jogo de sedução, inundado de dourado - antagonismo ou complementaridade?
Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.
Curiosamente, a única parte realista desta pintura, tão subtilmente erótica, é o espaço ocupado pelos rostos.
Tenho tantos segredos
Que te quero contar
E uma noite não chega,
Diz que podes ficar.
Klimt inspirou-se na sua relação com Emile, sua namorada ou amante, e alguns críticos salientam que esta é uma mulher submissa, devido à inclinação do seu rosto, e ao nível inferior em que é representada.
Diz-se que é o homem que domina e que toma a iniciativa do beijo, e que a mulher abandona-se, o rosto é passivo, e as suas mãos crispam-se.
Enfim nós os dois,
Os teus gestos nos meus,
.... quem vai adivinhar os mistérios do amor?
Quem me dera poder conhecer
Esse silêncio que trazes em ti,
Quem me dera poder encontrar
O silêncio que trazes por mim.
A mulher aparece envolvida na roupagem masculina, num abraço apaixonado, e numa posição efectivamente inferior, mas perfeitamente equilibrada com o seu rosto, extremamente feminino e belo, sendo o único visível na sua totalidade.
eu não sei, que mais te posso dar
um dia jóias noutro dia o luar
gritos de dor,
gritos de prazer
que um homem também chora
quando assim tem de ser
No amor, é tão dificil distinguir submissão, de entrega, de sedução consentida, de erotismo, de sinalética de paixão......
O beijo, aquele momento que sucede aos olhares que se olham, dialogando no silêncio.
Tudo o que eu te dou
tu de das a mim
tudo o que eu sonhei
tu serás assim
tudo o que eu te dou
tu me das a mim
tudo o que eu te dou*
O Beijo de Klimt e Mona Lisa comparam-se, em relação ao fascínio que exercem, e ao seu simbolismo que nunca foi completamente descodificado.
* poemas de Pedro Abrunhosa
Anabela Quelhas (22/02/06)
Publicado em www.sanzalangola.com em 05/03/2006

12 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)

Mas as mudanças continuam, a velha televisão foi substituída por um grande plasma. Hoje pretende-se mais do que nunca que a cozinha seja um espaço elegantemente laboratorial, minimalista, contemplando as operações de confecção rápida, congelamento e descongelamento, aquecimento rápido sem chama, desintegração de lixos, … mas tudo muito, muito kleen como se vê nos filmes! Que não cheire, que não suje, que não pegue e que não cole.
Passou-se às terminologias, dos aderentes e antis, dos termoestaticos, dos vitrocerâmicos, dos taperweares, antigermes.
Antes, a cozinha era mais estômago, hoje é cérebro, e electrónico. O que está a dar é a cozinha domótica, que envia mensagens de voz pelo telemóvel. “Cozinha domótika comunicando, cozinha domótika comunicando!!!!!!!, existência de fuga de água no equipamento de lavagem de louça.” – afinal, era a penas o respingo da limpeza do chão. “ Cozinha domótika comunicando intrusão” – afinal era só o gato a saltar para a janela…… por falar em gato, primeiro em toda a cozinha havia um prato para o gato, que se deliciava com os restos das comidas, …. nem esse escapou, coitado, perante os trituradores e compactador de lixos, agora só a comida de lata!

Ana Salazar e Fátima Lopes passaram a desenhar azulejos decorativos. Está a valer tudo! Esperem que um dia destes não ficam só no azulejo, se estendem até para o exterior da casa, inventando um modelo arquitectónico qualquer, à costureirinha.


Entramos no sec. XXI, Os feixes de luz, ficaram lá no passado da memória, encerrado no meu gavetão preferido, e demos de caras com a panela Bimbi!
Eu não tenho. Para mim, cozinhar é um vício, uma dependência terrível dessas tarefas laboratoriais, que eu não pretendo ingressar, por isso pretendo comprar apartamento sem cozinha! A bimbi faz tudo… adoro constatar (nunca provei) as receitas: bacalhaus espirituais, doces conventuais, sopas divinais, e outros atecetras e tais,… portanto a minha decisão de apartamento sem cozinha até nem é muito descabida, parece-me mesmo muito acertada! A ver vamos!
O marceneiro passou a ser profissão em extinção, protegida e subsidiada pelos fundos comunitários. Agora o que está a dar são as grandes superfícies com imensas ofertas, onde se escolhe e no dia seguinte, a cozinha está na cozinha. Nem mais, exactamente como se vê nas revistas! Às vezes não cabe, mas isso é outra treta!

Vou esperando por uma Bimbi que inclua, as compras no supermercado, com ligação directa ao mesmo, e que eu daqui do meu PC, me divirta a escolher pura e simplesmente a ementa. Ainda aceito o trabalho de por mesa e servir, actividades, modéstia à parte, faço com esmero e criatividade. Os amantes da cozinha devem estar horrorizados. Caros amigos, alguém tem que por a mesa!!!!

Comecei em Manhufe e terminei nas Bimbis, as palavras se encontram, fazem amizade umas com as outras, se divertem e fica difícil dizer-lhes que tenho que acabar..- também não me pagam para escrever, portantus…. Comecei em tonalidade séria e terminei na nuance divertida. Hoje penso assim, mas vão contando que amanha, talvez já não pense do mesmo modo.






11 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi

As décadas passaram… os tugas emigraram, regressaram de férias e começou a nascer a nostalgia do pão de forno, as famílias começaram a aspirar por cozinhas regionais iluminados pelas ideias de la Provence.
Para além dos rés-do-chão amples, a tipologia das habitações dos anos 80, passou a incluir a tal cozinha regional, para reunir amigos na comerzaina. Era esta uma das características que formalmente mencionavam quando encomendavam o desenho das suas maisons. Mas os utentes, ingénuos nestas coisas da arquitectura, esqueceram-se, que o homem moderno, já não suporta fumo, padecendo de ardência nos olhos, que as mademoiselles desgostam de cabelos a cheirar a fritos, que os putos não curtem carregar lenha e recolher pinhas pelos pinhais… quem gosta ir de visita, aos amigos, morfar uma boa sardinhada, não está interessado em regressar com os odores gastronómicos entranhados da cabeça aos pés, empestinhando até o mercedão, na viagem de regresso a casa?!!!!!.


Bom!!!! A cozinha regional, passou a ter forno e grelhador à parte, numa terceira cozinha, onde se pode mesmo fazer o lume no chão como antigamente e dá até para fazer o fumeiro, andar de socos, …. Assim o coração da casa passou a ser continuamente transplantado, desdobrando-se sucessivamente. Nós tugas temos essa capacidade cristã, à semelhança da multiplicação dos pães, de autentica clonagem tipológica. Verdade!!!! Conheço um lá p’ras bandas de Chaves que já vai na 5ª cozinha – isto já não é uma caso de amor com as cozinhas, é mesmo paixão, daquelas bravas!
A cozinha regional, passou a ser exclusivamente para receber - com uma grande mesa maciça (pensam eles), armários de madeira à vista, com desenho pesadão à Paços de Ferreira, prateleiras com tachos e panelas de cobre nunca usados, arranjos de cebolas e alhos pendurados pelos cantos (deve ser para espantar vampiros), coelhinhos e galinhas de loiça distribuídos, segundo o gosto desacertado da dona da casa, tudo enquadrado em azulejo, dizem eles, do século XVII. As felisbelas e as belmiras, rapidamente passaram a marias, a sónias, a neides margaretes, carolines e a katias vanessas. Está certo!
(cont.)

10 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)

Azulejos, só nas casas de brasão à porta, e eram manufacturados, daqueles que hoje preenchem as prateleiras dos antiquários e dali, seguem para uma moldura para colocar na parede da sala.
Junto à lareira, o granito era mesmo preto de fumo depositado da lenha de carvalho, que ardia de Inverno a Inverno, sem parar… acrescentado de gravetos, de giestas, de caruma de pinheiro, de urze e de pinhas.
Com o racionalismo, a cozinha entrou na fase da limpeza.
As ementas empobreceram, mas as superfícies começaram a espelhar.
O algodão não engana”, surgiu depois, mas foi mais ou menos esta a caminhada: O fogão de lenha, passou a ser esmaltado, o chupão foi anulado, a salgadeira e o escano queimaram-se, a água chegou canalizada, apesar de enferrujada pelos “canos”, o lavatório em ferro forjado viajou para a tulha, os queijos de cabra passaram a ser rejeitados devido à brucelose, o fumeiro passou a provocar cancro do cólon, as castanhas engordam, a mão de vaca entrou na loucura da vaca, assim como os fígados e outras miudezas, a leite passou a ser pasteurizado, …e começaram a aparecer as anedotas do arroz de cabidela.
…. passou a haver, um local de maior visibilidade dedicado à telefonia e mais tarde à televisão de canal único, com naperon por cima. Passou a haver fogões de gazcidla pernas altas, passou a haver frigoríficos, e nos anos sessenta começou o reinado da mesa com camilha à espanhola, influências dos mercados fronteiriços, do tempo do Franco, do tipo, “Feces de Abajo”, “Fontes de Onoro” e “Badajós”.
Os móveis de cozinha que até aí eram pensados e feitos no marceneiro, de lápis na orelha, que se orgulhava de não misturar pregos com madeira, passaram a ser executados em fábricas na linha de montagem em série.
A família deixou de fazer as refeições na cozinha e passou a fazer num espaço dentro da mesma apelidado de copa. O cima dos armários passou a ser habitado pelo artesanato da região, ou pelos ferros de passar a carvão, em desuso e decrepitamente convertidos em suporte de flores de plástico. A cozinha de tão feia que era, passou a ter os naperons de cozinha a enfeitar os granitos e os mármores, não se fosse confundir com o lajedo dos ditos com outros, sob os quais repousam os falecidos, e ainda, os azulejos floridos que concentravam ali a “alegria do lar”. Quanto mais florido melhor!!! Florido, mas sem ser o azulejo com as cores tradicionais portuguesas da viúva de Lamego, florido mesmo ali das fábricas de Aveiro, junto à ria.
Não estou a ser nada mázinha!!!!!!!!!!!!!!!!! Foi isto que nós vivemos!!!! E não esqueçam os bibelots de cozinha, de arrasar qualquer um… as couves das caldas, os galos de Barcelos, as galinhas poedeiras, a Nossa Senhora de Fátima a abençoar o lar… enfim, o country à tuga!
(cont)